domingo, 9 de novembro de 2014
Lar doce lar
Oh doce muleta quebrada,
tão cedo veio, foi-se que nem ouço,
fratura súbita, sádica;
empurrando-me abaixo
no abismo profundo - fundo do poço.
Maldita muleta delicada,
que me encheu os olhos e ouvidos;
na boca, porrada.
Que teve meu amor, muleta ferrada,
e agora perece putrificada,
os materiais tão delicados,
tão precocemente destroçados,
fazendo companhia para minha tortura solitária.
Bem vinda ao abismo
tão cedo veio, foi-se que nem ouço,
fratura súbita, sádica;
empurrando-me abaixo
no abismo profundo - fundo do poço.
Maldita muleta delicada,
que me encheu os olhos e ouvidos;
na boca, porrada.
Que teve meu amor, muleta ferrada,
e agora perece putrificada,
os materiais tão delicados,
tão precocemente destroçados,
fazendo companhia para minha tortura solitária.
Bem vinda ao abismo
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Ontem terminei meu namoro de dois anos e pouco e, naturalmente, chorei. e ri. e chorava porque ria, mas tambem ria porque chorava. e talvez essa situacao de retroalimentacao contraditoria e simultanea nao faça sentido - e creio que de fato nao faz, mas tambem acho que a vida é, de uma certa forma, desprovida de sentido, que é o que da aquele toque agridoce do acaso. é claro que chorei antes de rir, pela tristeza e dor da situacao. mas, uma vez estando num dos mais bregas cliches de filmes romantichatos de hollywood, nao pude deixar de achar graca. "nao e voce, sou eu"... "putz... haha" e houve certo pesar na risada. mas a dor tornou-se mais leve e mais facil de carregar. talvez devamos entender que nossos sentimentos e a vida, de uma forma geral, sao complexos demais para um monopolio solitario de um sentimento megalomaniaco, por mais que seja apenas aquele momento - que a dor reine! de uma forma geral, talvez seja mais saudável encararmos a vida como a tragicomedia que ela de fato é. e lembrarmos constantemente que para toda desgraça há graça, por mais que o "des"nos tente fazer esquecer disso. après tout, c'est la vie.
domingo, 21 de setembro de 2014
O Plebiscito da Plantation
Foi lá para o século XIX, numa dessas plantations, esses arados que tem a sofisticação europeizada no nome, daqueles de quem sempre comeu na mão dos anglofônicos e sempre comerá, mas que no corpo tem o sangue e o suor dos outros, dos colonizados, dos que não sabem se portar diante da avassaladora civilização e, como punição, tem de catar algodão até furar os dedos e cortar cana até perder a mão. Um senhor de terras daqueles iluminados, esclarecidos, progressistas, ouviu por um colega aristocrata de alto respeito que lá pelo velho continente falavam-se em ideias antigas que estavam sendo resgatados e que os franceses e, mais importante, os ingleses, cavalheiros por raça e distinção, discutiam conceitos como participação popular, opinião pública, igualdade perante a lei, emancipação do homem e uma tal de democracia, maluquice dos gregos... ou romanos... bom, que importa? Certamente eram seres notáveis. O senhor de terras, plantation owner por definição e vontade divina, jamais poderia ignorar a opinião de tão notáveis anglo-franco-gentlemen e resolveu flertar um pouquinho com a tal da democracia.
Atenção, atenção!, bradou o senhor de terras para a turba de escravos cansados, Faremos em breve um plebiscito!
Os escravos se entreolharam, perplexos e confusos, mas que porra era um plebiscito? Não emitiram um pio. Sabiam o que se passava com quem o fazia. Alguns carregavam nas costas o latejar pulsante que os lembrava o valor do silêncio. Os que não o tinham, poderiam conferir no corpo de seus colegas de servidão. Se nem isso fosse o bastante, haviam as valas mal cavadas daqueles que efetivamente piaram e daqueles que ousaram até mesmo cacarejar, como o galo ao raiar do dia, o canto poderoso da liberdade - mas que logo aprenderam, nada cantava tão alto quanto o rugido das balas.
Está combinado, então!, anunciou, satisfeito, Logo trago as novas!
O senhor de terras passou horas, dias, semanas planejando seu grande projeto revolucionário. Sim! Como era iluminado, como era esclarecido, como era progressista! E como era de-mo-crá-ti-co!! Ah, que doce palavra! Trazia para si as brisas frias, porém cálidas da Europa! Sorria contente e voltava ao trabalho. Por fim, quando ficou satisfeito com seu grande ato, chamou a família e os amigos para mostrá-los. Todos aplaudiram seu feito de-mo-crá-ti-co. Orgulhoso, foi aos escravos.
Atenção, atenção!, chamou o latifundiário, brandindo um maço de papéis no ar, Tenho aqui um projeto para o plebiscito que discutirá vossa emancipação!
Os escravos se entreolharam, incrédulos, olhos arregalados.
Quer dizer, sua liberdade., acrescentou o senhor, convencido da ignorância dos escravos. Não era necessário, eles já haviam ouvido essa palavra algumas vezes, fosse pelos traficantes que os trouxeram, que discursavam lindamente sobre liberdade, fosse pelos comerciantes que falavam de igualdade e de tudo o que acontecia na Europa e havia de acontecer na colônia, fosse entre eles, compartilhando histórias, planejando fugas e lutas e falando abertamente de fraternidade. Sabiam todo o peso e poder que aquela palavra carregava. Emancipação significava não ser mais chicoteado. Emancipação significava não ter mais os membros decepados ou moídos. Significava não serem mais estuprados. Significava poder falar a própria língua e crer na própria crença. Significava, sim, estar livre para ir embora, mas muito, muito mais. Significava e significa nunca mais ter que abaixar a cabeça para ninguém, nunca mais ser humilhado, nunca mais ser submetido. Mas ainda não estavam lá. Ficaram calados, como bem sabiam que deveriam, apesar dos olhos agitados, das respirações ofegantes e do coração bola de demolição dentro do peito.
O senhor de terras apertou os lábios decepcionado. Esperava uma reação mais de acordo com seu projeto de-mo-crá-ti-co. Entrou de novo na casa grande. O bater da porta anunciou o burburinho na senzala, um zumbido insistente e constante que não passou desapercebido pelos habitantes da grande e branca casa grande.
Que isso?, perguntou a senhora.
Devem ser moscas, respondeu o senhor, ansioso para falar-lhe de seus planos.
Vai mesmo soltar os escravos, pai?, questionou o filho, um pouco temerário de perder sua grande herança viva.
Sim, filho, se assim quiser a democracia!, respondeu, orgulhoso, De fato, podemos nos reunir amanhã mesmo para votar. Já anunciarei ao chefe dos capatazes para que nos encontrem por aqui de manhã para realizarmos nossa votação.
Eles votarão também, pai?
É claro, filho, assim manda a democracia. É assim que pensam lá na Europa.
E quem mais virá?
Bom, todo mundo, nós dois, sua mãe, seus irmãos, os capatazes, os senhores da vizinhança, e José Gomes, que me trouxe essa ideia iluminada de suas viagens pelo velho continente.
E os escravos?
O que tem eles?
Não vão votar?
Oh, céus, não, filho. Você tinha que ver a cara deles quando falei em plebiscito, como ficaram confusos! Não, filho, de forma alguma. Eles são ignorantes demais para saber o que querem, o que é melhor para eles, para todos. Isso, isso mesmo, o resultado de um plebiscito tem de ser bom para todos e eles são egoístas, não conseguem pensar nos outros.
O filho sorriu em concordância e serviu-se de um pedaço do bolo de fubá que uma escrava da casa havia feito de manhã.
Quando se reuniram na manhã seguinte na casa grande, os escravos viram toda a movimentação e compreenderam do que se tratava. Não trabalharam aquela manhã, apenas aguardaram. E aguardaram. E quando, já à tarde, o senhor veio à porta falar-lhes, estavam todos reunidos ao redor da casa grande. O latifundiário gostou daquela atenção. Pigarreou para limpar a garganta, puxou de sabe-se lá onde um grande maço de papel e começou seu discurso. Os escravos ouviram atentamente até a última frase. Até o senhor dizer "E declaro, portanto, que, de acordo com o que Deus e a Justiça concebem como o correto, vossa escravidão foi, por meio dos poderes democráticos deste plebiscito, considerada..." os escravos prenderam a respiração "mantida", concluiu o sacripanta.
E que seja para o bem comum!, adicionou, com um orgulhoso sorriso no rosto, ciente de ter cumprido seu papel democrático, ciente de toda a sua pompa revolucionária e iluminada. Como era esclarecido, como era europeu! E bateu a porta.
Era demais para eles. Sentiram por um dia o gosto iminente da liberdade, da emancipação. Estiveram próximos demais da vida para abandoná-la. Talvez o senhor tenha ficado confuso quando o primeiro escravo ingrato arrombou-lhe a porta e deu-lhe com a enxada na cabeça. Talvez todos os brancos muy libertário, avançados e europeus e, claro, oh tão democráticos, não tenham compreendido a enxurrada de pretos berrando berros nas mais diferentes línguas e atacando com os mais diferentes instrumentos. Tão, tão ingratos. Talvez os colonos colonizadores não tivessem a dimensão do gesto democrático do qual estavam tão orgulhosos de terem protagonizado. Foram mortos aos montes, à porrada e cuspes. Três negros foram alvejados pelos capatazes. Morreram. O primeiro preto, o que pegou a enxada e arrombou a porta, olhava para suas mãos meladas de sangue - pela primeira vez não o seu - e lavou-as com lágrimas. Estavam livres.
Seu filho viu, no Rio de Janeiro, quando foram todos os escravos alforriados, graças à formosa dama Isabel. Bendita seja a Princesa. Deus a abençoe. No mesmo dia, levou uma coça de alguns insatisfeitos com a decisão da dama e quase morreu. Em seu tempo moribundo, conheceu as vísceras da igualdade racial europeia. Andava com os brancos na rua, mas não havia um branco com ele na sarjeta.
O quarto depois desse na geração, por sua vez, pôde ver nos jornais e na televisão como uma torcedora racista tentava dar a volta por cima com o mesmo orgulho alforrista anglofônico. Riu vazio da menina. Sentira na pele e na alma as chibatadas da modernidade e da igualdade caucasiana de direitos vezes demais para simpatizar com a menina chorosa. Não sabia da história do pai de seu bisavô mas, se soubesse, poderia reconhecer aquele mesmo orgulho branco europeu do senhor de terras, aquele do discurso longo e complicado, dos ideais bonitos, da de-mo-cra-ci-a... poderia reconhecê-lo de imediato nas lágrimas da menina, em suas palavras nunca arrependidas por denegrir um ser humano.
"Não sou racista, fiquei com um cara negro", leu ele com rancor e escárnio.
http://odia.ig.com.br/esporte/2014-09-17/torcedora-que-ofendeu-aranha-quer-se-tornar-simbolo-contra-o-racismo.html
Atenção, atenção!, bradou o senhor de terras para a turba de escravos cansados, Faremos em breve um plebiscito!
Os escravos se entreolharam, perplexos e confusos, mas que porra era um plebiscito? Não emitiram um pio. Sabiam o que se passava com quem o fazia. Alguns carregavam nas costas o latejar pulsante que os lembrava o valor do silêncio. Os que não o tinham, poderiam conferir no corpo de seus colegas de servidão. Se nem isso fosse o bastante, haviam as valas mal cavadas daqueles que efetivamente piaram e daqueles que ousaram até mesmo cacarejar, como o galo ao raiar do dia, o canto poderoso da liberdade - mas que logo aprenderam, nada cantava tão alto quanto o rugido das balas.
Está combinado, então!, anunciou, satisfeito, Logo trago as novas!
O senhor de terras passou horas, dias, semanas planejando seu grande projeto revolucionário. Sim! Como era iluminado, como era esclarecido, como era progressista! E como era de-mo-crá-ti-co!! Ah, que doce palavra! Trazia para si as brisas frias, porém cálidas da Europa! Sorria contente e voltava ao trabalho. Por fim, quando ficou satisfeito com seu grande ato, chamou a família e os amigos para mostrá-los. Todos aplaudiram seu feito de-mo-crá-ti-co. Orgulhoso, foi aos escravos.
Atenção, atenção!, chamou o latifundiário, brandindo um maço de papéis no ar, Tenho aqui um projeto para o plebiscito que discutirá vossa emancipação!
Os escravos se entreolharam, incrédulos, olhos arregalados.
Quer dizer, sua liberdade., acrescentou o senhor, convencido da ignorância dos escravos. Não era necessário, eles já haviam ouvido essa palavra algumas vezes, fosse pelos traficantes que os trouxeram, que discursavam lindamente sobre liberdade, fosse pelos comerciantes que falavam de igualdade e de tudo o que acontecia na Europa e havia de acontecer na colônia, fosse entre eles, compartilhando histórias, planejando fugas e lutas e falando abertamente de fraternidade. Sabiam todo o peso e poder que aquela palavra carregava. Emancipação significava não ser mais chicoteado. Emancipação significava não ter mais os membros decepados ou moídos. Significava não serem mais estuprados. Significava poder falar a própria língua e crer na própria crença. Significava, sim, estar livre para ir embora, mas muito, muito mais. Significava e significa nunca mais ter que abaixar a cabeça para ninguém, nunca mais ser humilhado, nunca mais ser submetido. Mas ainda não estavam lá. Ficaram calados, como bem sabiam que deveriam, apesar dos olhos agitados, das respirações ofegantes e do coração bola de demolição dentro do peito.
O senhor de terras apertou os lábios decepcionado. Esperava uma reação mais de acordo com seu projeto de-mo-crá-ti-co. Entrou de novo na casa grande. O bater da porta anunciou o burburinho na senzala, um zumbido insistente e constante que não passou desapercebido pelos habitantes da grande e branca casa grande.
Que isso?, perguntou a senhora.
Devem ser moscas, respondeu o senhor, ansioso para falar-lhe de seus planos.
Vai mesmo soltar os escravos, pai?, questionou o filho, um pouco temerário de perder sua grande herança viva.
Sim, filho, se assim quiser a democracia!, respondeu, orgulhoso, De fato, podemos nos reunir amanhã mesmo para votar. Já anunciarei ao chefe dos capatazes para que nos encontrem por aqui de manhã para realizarmos nossa votação.
Eles votarão também, pai?
É claro, filho, assim manda a democracia. É assim que pensam lá na Europa.
E quem mais virá?
Bom, todo mundo, nós dois, sua mãe, seus irmãos, os capatazes, os senhores da vizinhança, e José Gomes, que me trouxe essa ideia iluminada de suas viagens pelo velho continente.
E os escravos?
O que tem eles?
Não vão votar?
Oh, céus, não, filho. Você tinha que ver a cara deles quando falei em plebiscito, como ficaram confusos! Não, filho, de forma alguma. Eles são ignorantes demais para saber o que querem, o que é melhor para eles, para todos. Isso, isso mesmo, o resultado de um plebiscito tem de ser bom para todos e eles são egoístas, não conseguem pensar nos outros.
O filho sorriu em concordância e serviu-se de um pedaço do bolo de fubá que uma escrava da casa havia feito de manhã.
Quando se reuniram na manhã seguinte na casa grande, os escravos viram toda a movimentação e compreenderam do que se tratava. Não trabalharam aquela manhã, apenas aguardaram. E aguardaram. E quando, já à tarde, o senhor veio à porta falar-lhes, estavam todos reunidos ao redor da casa grande. O latifundiário gostou daquela atenção. Pigarreou para limpar a garganta, puxou de sabe-se lá onde um grande maço de papel e começou seu discurso. Os escravos ouviram atentamente até a última frase. Até o senhor dizer "E declaro, portanto, que, de acordo com o que Deus e a Justiça concebem como o correto, vossa escravidão foi, por meio dos poderes democráticos deste plebiscito, considerada..." os escravos prenderam a respiração "mantida", concluiu o sacripanta.
E que seja para o bem comum!, adicionou, com um orgulhoso sorriso no rosto, ciente de ter cumprido seu papel democrático, ciente de toda a sua pompa revolucionária e iluminada. Como era esclarecido, como era europeu! E bateu a porta.
Era demais para eles. Sentiram por um dia o gosto iminente da liberdade, da emancipação. Estiveram próximos demais da vida para abandoná-la. Talvez o senhor tenha ficado confuso quando o primeiro escravo ingrato arrombou-lhe a porta e deu-lhe com a enxada na cabeça. Talvez todos os brancos muy libertário, avançados e europeus e, claro, oh tão democráticos, não tenham compreendido a enxurrada de pretos berrando berros nas mais diferentes línguas e atacando com os mais diferentes instrumentos. Tão, tão ingratos. Talvez os colonos colonizadores não tivessem a dimensão do gesto democrático do qual estavam tão orgulhosos de terem protagonizado. Foram mortos aos montes, à porrada e cuspes. Três negros foram alvejados pelos capatazes. Morreram. O primeiro preto, o que pegou a enxada e arrombou a porta, olhava para suas mãos meladas de sangue - pela primeira vez não o seu - e lavou-as com lágrimas. Estavam livres.
Seu filho viu, no Rio de Janeiro, quando foram todos os escravos alforriados, graças à formosa dama Isabel. Bendita seja a Princesa. Deus a abençoe. No mesmo dia, levou uma coça de alguns insatisfeitos com a decisão da dama e quase morreu. Em seu tempo moribundo, conheceu as vísceras da igualdade racial europeia. Andava com os brancos na rua, mas não havia um branco com ele na sarjeta.
O quarto depois desse na geração, por sua vez, pôde ver nos jornais e na televisão como uma torcedora racista tentava dar a volta por cima com o mesmo orgulho alforrista anglofônico. Riu vazio da menina. Sentira na pele e na alma as chibatadas da modernidade e da igualdade caucasiana de direitos vezes demais para simpatizar com a menina chorosa. Não sabia da história do pai de seu bisavô mas, se soubesse, poderia reconhecer aquele mesmo orgulho branco europeu do senhor de terras, aquele do discurso longo e complicado, dos ideais bonitos, da de-mo-cra-ci-a... poderia reconhecê-lo de imediato nas lágrimas da menina, em suas palavras nunca arrependidas por denegrir um ser humano.
"Não sou racista, fiquei com um cara negro", leu ele com rancor e escárnio.
http://odia.ig.com.br/esporte/2014-09-17/torcedora-que-ofendeu-aranha-quer-se-tornar-simbolo-contra-o-racismo.html
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Segunda-feira
E olhava para baixo, inerte de corpo e alma, avistando o destino final sem sentir nada. Nada. O fel e o mel da vida, castrados, como um velho que dedica os dias a observar desinteressado as paredes de seu catre, à espera da morte. A morte! Via agora. Via no asfalto. A morte, sorridente e sedutora, a chamava:
"Pule!", ordenou.
Obedeceu
Talvez para os pedestres que, aos empurrões, disputavam espaço entre si e os donos dos carros abandonados para observar aquele pedaço de asfalto, aquele mesmo pedaço quente de asfalto que, há alguns segundos, sorria, mas que agora babava o escorbuto sujo do desengano; talvez para esses, esses que não ouviram o doce canto da morte, refletida no sol de verão; talvez nunca os tenha ocorrido - e, se for o caso, certamente nunca ocorrerá - que aquele amontoado brutalizado de carne, fluidos e ossos fora, há não tanto tempo atrás, uma mulher. E caso tal assunção tenha validade, é provável também que tão rápido se aglutinaram como pombos em torno de migalhas, a macabra platéia partirá tão cedo acabe seu interesse, tal é o impacto que a violência tem nos dias de hoje. Mas talvez não estejamos tão mal assim... verdade seja dita, morte em praça pública não é mais evento de festividades - talvez contra a vontade geral daqueles que pedem execução sumária de bandidos e marginais e derivados, seja lá o que lá sejam, e que vibram quando são, de fato, executadas as execuções. Mas divagamos. De volta para nossos pombos, parece que, de fato, todos se foram. Uma mulher teria feito menção de ligar para a emergência mas baixou o celular quando alguém lhe questionou "pra quê? não vai adiantar de nada mesmo". Realmente não adiantaria. A moça, ou seja lá como a chamemos agora, embarcara numa viagem sem volta Deus (e possivelmente ela própria, dependendo da crença do leitor) sabe pra onde. Além disso, acabavam-se os créditos do celular. Não valia a pena. "Deixe", concluiu, cedo ou tarde alguém vai avisar a alguma autoridade, que deve entrar com algum processo burocrático específico para remoção de corpos da via pública. Todas as questões corporativas resolvidas e a calçada devidamente higienizada, seria finalmente como se nunca ninguém houvesse feito dela seu túmulo. Nem mesmo os pedestres que, sedentos por seja lá o quê, se arrebanharam ao redor da senhora tombada, se lembrarão, quando passam por ali, de que estão pisando no sorriso torto de um asfalto sedutor. Não se lembrarão do suco vermelho que, pensando serem os sulcos do asfalto veias e artérias, corria, circulava até não poder mais, até estagnar frustrado numa poça sem pulsação. Tampouco se lembrarão da verdade coagulada que exalava de sua cor escura, de seu cheiro acre, de seu imóvel contentamento.
Espere, leitor, talvez tenhamos nos precipitado. O jovem rapaz que agora atravessa a rua acompanhou todo o drama da mulher que saltara. À caminho da faculdade, observava distraído os prédios enquanto esperava o sinal abrir, quando se depara com uma senhora olhando fixamente para baixo. O sinal abriu, mas o rapaz apenas pousou sua mochila no chão e aguardou pacientemente os movimentos da mulher. Observou-a entrando em casa e voltando para a janela. Entrando novamente, cortando nervosamente, como um jovem médico em sua cirurgia de estréia, as redes que a protegiam do ar fétido da cidade, retornando para dentro e, após um longo tempo, finalmente escalando o parapeito da janela, o rosto, à princípio, o rapaz pôde observar, de expressão tensa e nervosa, mas então, com a segurança que traz as palavras certas sussurradas nos ouvidos, serena e segura. Quando o asfalto falou, o garoto ouviu e soube, antes de acontecer, que a moça pularia. E, quando pulou, uma lágrima solitária manchou a camisa do rapaz.
Agora, ajoelhava-se para observá-la, os pedestres contornando o casal, com olhares de reprovação - onde já se viu brincar com morto? Afastou com delicadeza e ternura os cabelos do rosto que ainda a tinha sobrado e admirou, fascinado, seu olhar - o olhar do mais puro tédio, que apenas a morte conhece. Fechou-lhe as pálpebras e, o coração pulsante preenchido de compaixão e carinho, beijou-lhe a face. O epitáfio final.
Levantou-se.
Alguém enfim ligava para alguma autoridade competente.
Começava a cheirar.
Olhou pela última vez.
O asfalto sorria.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
sujeito gozado
O orgasmo era, para o cidadão, a realização mais que sublime de toda a potencialidade da vida
por isso,
quando gozava,
sentia existir a existência de si em si e nas outras coisas.
resolveu que gozaria, então, para o resto da vida e o que era um hobbie se tornou um propósito.
e gozou...
e a cada ejaculada
uma epifania.
e gozou...
e a cada virada de olho
uma descoberta
e gozou
e a cada gozada
conhecia um pouco mais de si.
até que secou
e na falta do gozo
e na falta de si
enlouqueceu,
se perdeu...
tentou, agitou, esfolou,
gozou uma última vez,
branco e vermelho
opa, caiu!
gozado, morreu...
por isso,
quando gozava,
sentia existir a existência de si em si e nas outras coisas.
resolveu que gozaria, então, para o resto da vida e o que era um hobbie se tornou um propósito.
e gozou...
e a cada ejaculada
uma epifania.
e gozou...
e a cada virada de olho
uma descoberta
e gozou
e a cada gozada
conhecia um pouco mais de si.
até que secou
e na falta do gozo
e na falta de si
enlouqueceu,
se perdeu...
tentou, agitou, esfolou,
gozou uma última vez,
branco e vermelho
opa, caiu!
gozado, morreu...
terça-feira, 13 de maio de 2014
I
sonhava contigo em preto e branco, em delicado contraste imerso em feixes de luz mais sólidos que a dor. a dor presente nos seus olhos muito azuis e muito pretos e muito água, muito mágoa, muito ar, muito fugazes... mas sólido. tão sólido que pesava seu olhar, intenso, sobre meu corpo e mente frágeis. sonhava que estávamos bem, que dançávamos lenta e melancolicamente, sabendo da irrealidade do acontecimento. eu, culpa. você, acusação. não diria uma palavra, mas olhava... com aquele olhar sólido de dor sólida... e dançava, a enganadora leveza dos seus movimentos, como se não lá estivesse... como se fosse efêmera como um sonho.
II
mágua
mágoa de suas lágrimas
a má mágoa
das más lágrimas
águarde
guarde toda água
que arde
e aguarde
sólidario
sozinho, solitário; sólido, concreto; lidar, arcar com; rio, canal fluvial; solidariedade, complacência, gentileza;
sonhava contigo em preto e branco, em delicado contraste imerso em feixes de luz mais sólidos que a dor. a dor presente nos seus olhos muito azuis e muito pretos e muito água, muito mágoa, muito ar, muito fugazes... mas sólido. tão sólido que pesava seu olhar, intenso, sobre meu corpo e mente frágeis. sonhava que estávamos bem, que dançávamos lenta e melancolicamente, sabendo da irrealidade do acontecimento. eu, culpa. você, acusação. não diria uma palavra, mas olhava... com aquele olhar sólido de dor sólida... e dançava, a enganadora leveza dos seus movimentos, como se não lá estivesse... como se fosse efêmera como um sonho.
II
mágua
mágoa de suas lágrimas
a má mágoa
das más lágrimas
águarde
guarde toda água
que arde
e aguarde
sólidario
sozinho, solitário; sólido, concreto; lidar, arcar com; rio, canal fluvial; solidariedade, complacência, gentileza;
terça-feira, 15 de abril de 2014
segunda-feira, 7 de abril de 2014
canção da primavera
quando te vi por vir o coração taquicardia
quando te tive aqui meu corpo já nada sentia
eu vim ver-te vir, vi logo o que eu queria
quando me tive a ti, senti logo a euforia
de um amor
que dê calor
ao peito congelado
que dê paz ao solitário
a mão
a pele
a doce pele
a doce fragrância que de seus cabelos emanavam
moviam-me
alma intensa e fresca
como a primavera mais pura
intensa e fresca
como a pequena horta detrás de nossa casa
que alimentará os filhos dos filhos dos filhos...
fez-me seu de gosto e melhor grado
amor residente das copas mais altas das árvores mais antigas
quais folhas farfalham ao seu passar!
desejo-te como quando te vi vir na primeira vez.
quando te tive aqui meu corpo já nada sentia
eu vim ver-te vir, vi logo o que eu queria
quando me tive a ti, senti logo a euforia
de um amor
que dê calor
ao peito congelado
que dê paz ao solitário
a mão
a pele
a doce pele
a doce fragrância que de seus cabelos emanavam
moviam-me
alma intensa e fresca
como a primavera mais pura
intensa e fresca
como a pequena horta detrás de nossa casa
que alimentará os filhos dos filhos dos filhos...
fez-me seu de gosto e melhor grado
amor residente das copas mais altas das árvores mais antigas
quais folhas farfalham ao seu passar!
desejo-te como quando te vi vir na primeira vez.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Frio de Janeiro
O sol ainda nos castiga, mas a cidade anda tão, tão fria... os olhos mirados nas pedras portuguesas soltas e os toques... quase inexistentes... o burburinho do transporte público reduzido a um silvar frio de tensa preocupação paranoica. o som do mórbido caminhar, as solas de sapato com seu bater abafado no asfalto, fazem eco. O silêncio faz eco... o frio faz eco... preciso de um sol que me aqueça o peito...
domingo, 23 de março de 2014
Pra não dizer que não falei do amor.
Plagiando uma amiga, resolvo fazer referência à música do Vandré. Mas, diferente dela, minhas referências à arte e à música terminam no título. Não falarei tampouco do amor... De fato, eu gostei do uso que ela deu pra frase e só por isso resolvi plagiar. Que importa? A gente vai vendo, com o tempo que nos carrega e desgasta, com essa chuva que começou a cair neste exato momento, fotografado para sempre nestas palavras - chuva boa, forte e brava - que as palavras que a gente escolhe para denominar os sentimentos que nos assolam (ah, sim, boa palavra. vou deixar) não são mais que arbitrárias... não falarei do amor, porque amor não existe. Amor não existe porque essa coisa devastadora a que chamamos de amor só pode ser inominável. Não tenho bases teóricas ou empíricas para tal afirmação. Só sinto que se já amei, e gosto de pensar que já o tenha, o sentimento foi tão variavelmente flexível que não dá pra pôr tudo sob o mesmo título. E eis que me surge a inspirada frase, novamente plagiada da música nacional: O amor errou (obrigado Lobão, de quando não era conservador enlouquecido). Errou feio, errou rude. O amor erra, é o que ele faz. errou tudo. não dá pra dizer que aquela dor enlouquecida, que dá insônia, úlcera e labirintite, é a mesma coisa que o plácido conviver da rotina de um casal. Céus! Infernos! Purgamentos! Essas coisas todas... Na verdade, leitor, divago... e não quero me estender... tira você suas próprias conclusões... Vou-me indo.
Plagiando uma amiga, resolvo fazer referência à música do Vandré. Mas, diferente dela, minhas referências à arte e à música terminam no título. Não falarei tampouco do amor... De fato, eu gostei do uso que ela deu pra frase e só por isso resolvi plagiar. Que importa? A gente vai vendo, com o tempo que nos carrega e desgasta, com essa chuva que começou a cair neste exato momento, fotografado para sempre nestas palavras - chuva boa, forte e brava - que as palavras que a gente escolhe para denominar os sentimentos que nos assolam (ah, sim, boa palavra. vou deixar) não são mais que arbitrárias... não falarei do amor, porque amor não existe. Amor não existe porque essa coisa devastadora a que chamamos de amor só pode ser inominável. Não tenho bases teóricas ou empíricas para tal afirmação. Só sinto que se já amei, e gosto de pensar que já o tenha, o sentimento foi tão variavelmente flexível que não dá pra pôr tudo sob o mesmo título. E eis que me surge a inspirada frase, novamente plagiada da música nacional: O amor errou (obrigado Lobão, de quando não era conservador enlouquecido). Errou feio, errou rude. O amor erra, é o que ele faz. errou tudo. não dá pra dizer que aquela dor enlouquecida, que dá insônia, úlcera e labirintite, é a mesma coisa que o plácido conviver da rotina de um casal. Céus! Infernos! Purgamentos! Essas coisas todas... Na verdade, leitor, divago... e não quero me estender... tira você suas próprias conclusões... Vou-me indo.
sexta-feira, 21 de março de 2014
respiram fundo... e bradam. como se não houvesse amanhã. e não há. e sabem. que não haveria de outra forma.
respiram fundo... e berram. os pulmões em chamas. e lampejam as lágrimas do desespero. e da fome. e da coragem.
respiram fundo... e gritam. os músculos tensionados. as mãos apertando com vontade os ancinhos. e as foices...
respiram fundo... e trovão! pelo que podem ter! pelo que deveriam ter! pelos seus filhos! pelos seus filhos!
respiram fundo... e partem.
respiram fundo... e lutam.
respiram...
terça-feira, 18 de março de 2014
hápátridas esquizomasoquistas (plan/pro)fetando no brazil
vivo os dias dormentes daqueles cuja bússola da alma foi perdida.
daqueles que fizeram da deriva, lar.
daqueles que respiraram o próprio cheiro pútrido da humanidade
- e se enojaram
- e vomitaram as coisas boas
- e fizeram de sua língua metralhadora de festim
- e morderam, os dentes careados, a bandeira nacional
- e suportaram os assassinatos, as torturas, os exílios e as indiferenças
só para se verem aqui.
de que adiantou?
seguem dor mentes.
sigo junto.
daqueles que fizeram da deriva, lar.
daqueles que respiraram o próprio cheiro pútrido da humanidade
- e se enojaram
- e vomitaram as coisas boas
- e fizeram de sua língua metralhadora de festim
- e morderam, os dentes careados, a bandeira nacional
- e suportaram os assassinatos, as torturas, os exílios e as indiferenças
só para se verem aqui.
de que adiantou?
seguem dor mentes.
sigo junto.
segunda-feira, 17 de março de 2014
troveja pelo céu estrelado
o metal sendo retorcido,
em agonia de torturado.
e os milhares de corpos suados enfileiramo-nos
e ignoramo-no.
em silencioso consentimento
ao vandalismo diário
a que somos submetidos.
e, como gado,
vamos passo a passo para o destino...
é o holocausto do transporte público.
o metal sendo retorcido,
em agonia de torturado.
e os milhares de corpos suados enfileiramo-nos
e ignoramo-no.
em silencioso consentimento
ao vandalismo diário
a que somos submetidos.
e, como gado,
vamos passo a passo para o destino...
é o holocausto do transporte público.
saspurtariadeviado
Erro à luz do sol;
Exposto
Eros à luz do cu;
Exposto
Vadio; Viado;
Bêbado; Safado;
Sofrido; Mordido;
Gozado
Erro na multidão;
Vago
Eros no quarto de motel;
Solto
Felicito tua chegada,
Oh, Mastro primo e absoluto
A me adentrar com violência bem vinda
Pinga em mim teu suco
Que jorro em ti meu tudo.
Erro na solidão;
Fraco
Eros na confissão;
Trato
Éramos em comunhão;
Os olhos teus e meu peito
Ofegante e largo
Vulto
Enorme e vibrante
De toque estuporante
De apavorante beleza...
Te amo! Te amo! Te amo!
Te chamo!
Vem!
Exposto
Eros à luz do cu;
Exposto
Vadio; Viado;
Bêbado; Safado;
Sofrido; Mordido;
Gozado
Erro na multidão;
Vago
Eros no quarto de motel;
Solto
Felicito tua chegada,
Oh, Mastro primo e absoluto
A me adentrar com violência bem vinda
Pinga em mim teu suco
Que jorro em ti meu tudo.
Erro na solidão;
Fraco
Eros na confissão;
Trato
Éramos em comunhão;
Os olhos teus e meu peito
Ofegante e largo
Vulto
Enorme e vibrante
De toque estuporante
De apavorante beleza...
Te amo! Te amo! Te amo!
Te chamo!
Vem!
domingo, 16 de março de 2014
sigo só,
e a gentil senhora que me acompanha mede meus passos.
"siga só", sussurra-me nos ouvidos.
obedeço.
por isso,
se me oferece orgia,
peço masturbação.
e se me oferece a glória,
exijo anonimato.
e se há cidade,
mato.
se é livre,
muro.
se é carinho,
murro.
se é junto,
afasto.
se é doce,
amargo.
se é profano,
sacro.
se é tudo,
vácuo.
e a gentil senhora que me acompanha mede meus passos.
"siga só", sussurra-me nos ouvidos.
obedeço.
por isso,
se me oferece orgia,
peço masturbação.
e se me oferece a glória,
exijo anonimato.
e se há cidade,
mato.
se é livre,
muro.
se é carinho,
murro.
se é junto,
afasto.
se é doce,
amargo.
se é profano,
sacro.
se é tudo,
vácuo.
terça-feira, 4 de março de 2014
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
esse saudosismo proustiano ainda vai me matar... morte à saudade do que nunca foi! que jogo perverso de realidades, buscando tempos perdidos e eras douradas, fazendo o presente, já sempre, sempre sujo e ingrato, parecer ainda mais imerso em sua própria imundice. e cai o castelo de cartas e por baixo vemos que tudo sempre foi o que é, afinal - puramente... anti-higiênico
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Se a solidão me isola e me torna impotente, é ela, também, que, por ironia, me concede o ímpeto para conquista da minha própria independência. Não deve ser coincidência; aquele que é só, é também aquele que mais conta consigo mesmo. É preciso estar lá para si, se não há mais ninguém. Do resto, apenas abismo.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
sinto a tensão meio seca e molhada no peito,
e amaldiçoo as lágrimas que não querem rolar,
fazendo, do meu olho apertado, tumor ardido
que quase não consegue enxergar.
a água rola no corpo, quente
tentando lavar
o que quer de mim que agora morto
em respiração deficiente,
em pulsação ausente,
em consciência inconsciente...
em luto, inquieto e silencioso
e amaldiçoo as lágrimas que não querem rolar,
fazendo, do meu olho apertado, tumor ardido
que quase não consegue enxergar.
a água rola no corpo, quente
tentando lavar
o que quer de mim que agora morto
em respiração deficiente,
em pulsação ausente,
em consciência inconsciente...
em luto, inquieto e silencioso
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
carta do adeus
Você me deixou... as mãos que pegavam na carne macia e morna agora molhadas de dor, lágrimas e suór, escorregam no mármore frio. Os sorrisos e prazeres converteram-se em caretas e o nada - aquela expressão inexpressiva, representação dolorosa da apatia - fez seu ninho em vida. insossa vida... você me deixou e levou consigo toda a cor do meu mundo. fica aquela massa cinzenta que nada diz, nada forma... te vi outro dia, ponto de cor na névoa cor de coisa alguma. estava feliz... que devo sentir? dor? contemplação? raiva? angústia? vergonha? faço de ti minha algoz. se está feliz, ótimo, que fique assim, mas que saiba também que me matou quando insistiu tanto em viver.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Vê se aguenta
Então lá vai! Eu te amei! Eu te amei com a paixão mais gutural e profunda que pode haver num ser, com o sentimento desesperado da necessidade de ficar junto, com o coração-infarto fulminando em peito longe e perto de seu corpo, sempre a espera de um contato, um contato qualquer. Mulher, eu te amei de largar tudo e vir correndo aos seus braços, de tosar a alma e deixar apenas aquele tumor frágil e bobo que é a sua parte nela. Te amei de dizer que não aguentava mais não te ter, te amei de não poder mais com o mundo, de pensar em morte prematura. Cacete, eu te amei muito, mas muito, mas te amei pra caralho mesmo. Agora... bom, agora, você é insuportável e não do tipo de insuportável que é difícil ficar junto por dor do que poderia ter sido, do que nunca, nunca, será... Não, é o insuportável de puta merda que saco, lá vem ela de novo. fazêuquê? C'est la vie.
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