sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Segunda-feira


E olhava para baixo, inerte de corpo e alma, avistando o destino final sem sentir nada. Nada. O fel e o mel da vida, castrados, como um velho que dedica os dias a observar desinteressado as paredes de seu catre, à espera da morte. A morte! Via agora. Via no asfalto. A morte, sorridente e sedutora, a chamava:
"Pule!", ordenou.
Obedeceu

Talvez para os pedestres que, aos empurrões, disputavam espaço entre si e os donos dos carros abandonados para observar aquele pedaço de asfalto, aquele mesmo pedaço quente de asfalto que, há alguns segundos, sorria, mas que agora babava o escorbuto sujo do desengano; talvez para esses, esses que não ouviram o doce canto da morte, refletida no sol de verão; talvez nunca os tenha ocorrido - e, se for o caso, certamente nunca ocorrerá - que aquele amontoado brutalizado de carne, fluidos e ossos fora, há não tanto tempo atrás, uma mulher. E caso tal assunção tenha validade, é provável também que tão rápido se aglutinaram como pombos em torno de migalhas, a macabra platéia partirá tão cedo acabe seu interesse, tal é o impacto que a violência tem nos dias de hoje. Mas talvez não estejamos tão mal assim... verdade seja dita, morte em praça pública não é mais evento de festividades - talvez contra a vontade geral daqueles que pedem execução sumária de bandidos e marginais e derivados, seja lá o que lá sejam, e que vibram quando são, de fato, executadas as execuções. Mas divagamos. De volta para nossos pombos, parece que, de fato, todos se foram. Uma mulher teria feito menção de ligar para a emergência mas baixou o celular quando alguém lhe questionou "pra quê? não vai adiantar de nada mesmo". Realmente não adiantaria. A moça, ou seja lá como a chamemos agora, embarcara numa viagem sem volta Deus (e possivelmente ela própria, dependendo da crença do leitor) sabe pra onde. Além disso, acabavam-se os créditos do celular. Não valia a pena. "Deixe", concluiu, cedo ou tarde alguém vai avisar a alguma autoridade, que deve entrar com algum processo burocrático específico para remoção de corpos da via pública. Todas as questões corporativas resolvidas e a calçada devidamente higienizada, seria finalmente como se nunca ninguém houvesse feito dela seu túmulo. Nem mesmo os pedestres que, sedentos por seja lá o quê, se arrebanharam ao redor da senhora tombada, se lembrarão, quando passam por ali, de que estão pisando no sorriso torto de um asfalto sedutor. Não se lembrarão do suco vermelho que, pensando serem os sulcos do asfalto veias e artérias, corria, circulava até não poder mais, até estagnar frustrado numa poça sem pulsação. Tampouco se lembrarão da verdade coagulada que exalava de sua cor escura, de seu cheiro acre, de seu imóvel contentamento.

Espere, leitor, talvez tenhamos nos precipitado. O jovem rapaz que agora atravessa a rua acompanhou todo o drama da mulher que saltara. À caminho da faculdade, observava distraído os prédios enquanto esperava o sinal abrir, quando se depara com uma senhora olhando fixamente para baixo. O sinal abriu, mas o rapaz apenas pousou sua mochila no chão e aguardou pacientemente os movimentos da mulher. Observou-a entrando em casa e voltando para a janela. Entrando novamente, cortando nervosamente, como um jovem médico em sua cirurgia de estréia, as redes que a protegiam do ar fétido da cidade, retornando para dentro e, após um longo tempo, finalmente escalando o parapeito da janela, o rosto, à princípio, o rapaz pôde observar, de expressão tensa e nervosa, mas então, com a segurança que traz as palavras certas sussurradas nos ouvidos, serena e segura. Quando o asfalto falou, o garoto ouviu e soube, antes de acontecer, que a moça pularia. E, quando pulou, uma lágrima solitária manchou a camisa do rapaz.
Agora, ajoelhava-se para observá-la, os pedestres contornando o casal, com olhares de reprovação - onde já se viu brincar com morto? Afastou com delicadeza e ternura os cabelos do rosto que ainda a tinha sobrado e admirou, fascinado, seu olhar - o olhar do mais puro tédio, que apenas a morte conhece. Fechou-lhe as pálpebras e, o coração pulsante preenchido de compaixão e carinho, beijou-lhe a face. O epitáfio final.

Levantou-se.
Alguém enfim ligava para alguma autoridade competente.
Começava a cheirar.
Olhou pela última vez.
O asfalto sorria.

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