quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

aquele gosto amargo do cigarro lhe incomodava e agraciava ao mesmo tempo. de alguma forma, sentia prazer naquilo... naquela sensação de estar cada vez mais próximo do fim. porque, na verdade, sentia que não aguentava mais. como já tivera a ideia de que nenhuma vida é fútil, tudo faz parte de um processo e tudo tem seu tempo, agora se cansara. sua vida era inútil. um amontoado de nada a permanecer, como pedra não vista, para sempre. pedra que é chutada sem perceber, pedrinha de asfalto que, aos poucos, com erosão, se torna pó de coisa alguma e some sem chamar atenção. o gosto do cigarro lhe aproximava da morte, então gostava. não acreditava em vida pós morte, então dizer que descansaria era bobagem. mas acreditava na vida pré morte... e esta lhe parecia insuportável. o galeano disse que os mais sensíveis eram aqueles que caíam e não conseguiam se levantar. não sabia se se considerava sensível. mas sabia que estava caído e lhe faltavam forças para não estar mais. o mundo visto do chão parecia gigante. o próprio homem de pé, inalcançável. sendo que já fora um homem de pé. entendeu que não mais voltaria a sê-lo. Como um paraplégico sem ajuda, só lhe restava rastejar. e o rastejo só pode durar tanto tempo até que as roupas se rasguem e a pele se esfole, pintando de vermelho o caminho, como o rastro do fracasso. via os homens de pé passando sem se importarem com ele. vez em quando, alguém caía, e ali permanecia, como ele, o olhar cansado, moribundo. pensava se teria aquele olhar também. o olhar de quem não enxerga mais, de quem não deseja mais. o olhar acostumado com o concreto quente do chão a lhe queimar a face. ficou lá, olhando sem enxergar, se esquecendo de comer, se esquecendo de se limpar, se esquecendo de respirar. o gosto amargo do cigarro foi a última coisa que sentiu antes de morrer, um misto de desgosto, deleite e alívio. aquele gosto horrível, mas necessário.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Dona Sílvia

Dona Sílvia não era e nunca havia sido dona de nada. As pessoas a chamavam assim por mera cortesia e convenção social. Diz a etiqueta brasileira que é de bom tom chamar pessoas idosas tal qual elas fossem ricas. Parece que, ao menos em termos de vocativos, estar próximo da morte é ascender socialmente. Era, portanto, Dona Sílvia e Seu Edinho. Seu Edinho, logo ele que, de verdade, nunca fora de ninguém - nem dele próprio. Diferente de Dona Sílvia, que lidava com naturalidade o vocativo desde seus primeiros fios de cabelo branco, Seu Edinho praguejava sempre que se referiam a ele como "Seu". "Seu é o caralho, ôoo (...)". Talvez fosse pela acusação de sua idade avançada; ou talvez fosse o fato contraditório de o chamarem por vocativos geralmente destinados a pessoas com largo valor de bens, enquanto que o maior bem de Seu Edinho era sua casa de dois quartos no subúrbio, feita a mão pelo avô, Deus sabe quantos anos atrás. Edinho deu sorte, de certa forma. Seus pais nunca tiveram irmãos nem outros filhos. Foi fácil para seus avós nunca deixarem dúvidas sobre a única herança que tinham, nem nunca houve a obrigação do compartilhamento, a não ser com sua esposa, Sílvia - na época do matrimônio -, ou Dona Sílvia - no presente. A linhagem já simples dos Silva simplificou-se mais ainda, visto que Dona Sílvia Silva e Seu Edinho Silva não deixaram herdeiros. Seu Edinho não pensava no que seria feito de sua única posse uma vez que falecesse, fugia tais pensamentos fúnebres. Mas evitar não lhe adiantou muito posto que, de fato, faleceu. E Dona Sílvia, agora sim dona de algo, também não soube o que fazer. Não acostumada a ser dona, Dona Sílvia acabou por abrir mão da casa em que passou a morar sozinha para viver com a irmã, Dona Célia, dona, ao menos de casa própria. Quando Seu Edinho morreu, Dona Sílvia chorou. Não porque o amasse e fosse sentir sua falta. À bem da verdade, Sílvia nunca amara Edinho, assim como Dona Sílvia não ama Seu Edinho. Casaram porque tinham que casar, porque é assim que se faz. Não ter filhos não foi um grande peso em sua consciência, apesar dos muitos questionamentos vindos da escarça família: sua irmã mais velha, sua há muito falecida mãe solteira, Dona Suzélia, abandonada pelo então marido no momento em que engravidou de Sílvia, exatamente no aniversário de dois anos de Célia. Mas Sílvia não se importaria de ter filhos, assim como também não se importou de não ter. Sua vida antes e durante seu relacionamento com Edinho foi mais ou menos assim. Pode ser, mas pode ser que não também. Enquanto transavam, Sílvia transava. Quando não transavam mais, Sílvia não transava. Enquanto estavam juntos, Sílvia lá estava. E quando não estiveram mais, Dona Sílvia não estava. Apesar disso, chorou com a morte de seu marido. Sete grossas e mudas lágrimas lhe escorreram pela face enquanto ligava para a emergência, o corpo inerte e morto de Seu Edinho, prostrado na cama, de cuecas samba-canção e sem camisa. Mais cinco ou seis lágrimas em seu vazio funeral. Só foram Dona Sílvia, Dona Célia e três ou quatro amigos de Seu Edinho, da época da repartição, com quem não falava há, pelo menos, uns dez anos. Diante da casa mais vazia, que agora lhe pertencia, Dona Sílvia decidiu que aquilo nunca fora nem nunca seria dela. Sentia-se usurpando o bem de outra pessoa, de Seu Edinho e da agora extinta família Silva. Isso a incomodava. Olhava para o próprio nome, entalhado na identidade, e estranhava. Sílvia Silva não era ela. Silva não era seu. Abriu mão novamente. Se perdera o direito do nome de solteira quando aceitou o nome do marido, agora que era viúva, não usaria nenhum. De Sílvia Nogueira para Sílvia Silva, para Dona Sílvia Silva para, finalmente, Dona Sílvia e, então, Senhora.

A Senhora era nova no bairro de Dona Célia. Ninguém a conhecia, a não ser quando caminhava pelas manhãs com sua irmã e era por ela apresentada. Foi nesse bairro que a Senhora conheceu um vendedor de cocos, pelo nome de Seu Manoel. Seu Manoel já havia sido e ainda era de muitas pessoas. Recebia os cocos de um fornecedor geral da região que lhe cobrava comissão por cada fruta vendida. Era, portanto, dele. Fazia bicos e quebrava galhos de vários moradores do bairro, sem titubear. Era deles. Deitava-se com muitas mulheres desde jovem e, em ocasiões, alguns homens. Fora deles também. E quando conheceu a Senhora, perguntou-lhe o nome, almejando ser dela também.

A Senhora hesitou. um momento de mudez.

- Samantha, muito prazer.

Samantha não sabia porque escolhera esse nome ou sequer por que vira a necessidade de escolher um nome novo.

- Seu Manoel - ofereceu Seu Manoel, alcançando a mão ossuda e enrugada de Samantha e a coroando com um beijo molhado.

Seu Manoel, do bairro de Dona Célia, foi, em breve, de Samantha. Assim como o foram outros homens - e algumas mulheres. Seu Jucélio, Seu Júlio, Seu Cabral, Seu Souza, Seu Cícero, Sua Aparecida, Sua Helena, Sua Alice...

Samantha não era mais Dona, mas era, pela primeira vez, dona. Samantha, pela primeira vez, anunciava sua vontade, mesmo que sem entender por que o fazia. Só o fazia. E a cada corpo conquistado, dominado, Samantha era mais dona de si. Fez-se conhecida no bairro. Dona Célia, é claro, ficou escandalizada. Mas passado algum tempo, deu de ombros. A verdade é que não estava tão interessada assim no comportamento sexual da irmã.

Quando Samantha morreu, houve confusão no funeral lotado. Ninguém, com exceção de Dona Célia, sabia quem era aquela Sílvia Silva, de nome ridículo lapidado no túmulo.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

o que é o sexo? um momento frívolo de prazer, diversão, passa-tempo carnal... uma ligação íntima... assunto de bar, placebo pra solidão? dá medo e tenta afastar o medo, abre e fecha, tal qual os movimentos pulsantes - acompanhando o sangue como lombada orgânica. o vai e vem de prazer e tensão, cansaço e leveza, vida e morte. saúde e doença. entrar e sair, permanecer e fugir. gritar, calar, sorrir, chorar. o que é o sexo? tema de poesia barata, voz em off de filme pretensioso com encadeamento lento. sexo é violência, é relação de poder, é machismo, misoginia. mas é quebrar, torcer, desmaiar, desarmar. palhaçada... no fim das contas não é mais do que uma coisa qualquer. um saco essas pessoas que tentam achar significado profundo no ato de respirar. sexo é respirar. é o que qualquer um pode fazer e faz, inevitavelmente.

----------------------

olhar por sobre os ombros e ver, lá atrás, o colorido pomar de sensações passadas... lembrar, os olhos clichês semicerrados pela nostalgia doce, como era boa a arrogância de se achar melhor do que tudo e todos. aquele pomar que só poderia dar frutas podres hoje seca diante da colheita: a mais putrefata feira. a arrogância me levou aos céus e a realidade das coisas, como a gravidade, me fez tombar. ainda de ossos quebrados, tento cavar a terra com os dentes, cuspindo novas sementes que ainda não encontrei. mas sei que talvez não encontre tempo para substituir o podre pomar que levou anos para crescer. gostaria aqui de reafirmar que, apesar de fétido, era lindo. talvez alguma feia flor apareça neste deserto e me contemple com algum delicado perfume.

--------------------

tenho certeza de que você teve suas razões. e algumas vezes penso que talvez tenha errado mais do que você. é certo de que nunca mais nos veremos como antes, quanto mais você ler isso. tenho raiva e arrependimentos, mas também confusões e curiosidades. o que foi real e o que não foi? ironia tal pergunta vir de alguém que joga com a realidade. a falência dos conceitos pós-modernos está justamente em precisarmos de um chão para nos sustentar. nem que seja um pé - não, um dedo! um dedo basta para gritar todas as mentiras sobre as verdades. mas precisa um dedo. você me amou? você jurou até o fim, até o derradeiro desastre, que sim. nunca acreditei... mas também nunca entendi se não acreditava em você ou em mim. ultimamente tem sido difícil pensar sem os clichês. Mas, falando nisso, aí vem mais um: o clichê só existe porque ele deve espelhar a realidade, não é mesmo? de todo jeito, contra o clichê, apenas a sinceridade: não espero que você seja feliz [e nem que a desgraça lhe venha], só gostaria que não voltasse a me assombrar, por favor. continuando com a franqueza, estou de saco cheio de revisitar nossas memórias que são tão, mas tão curtas e finitas, que não consigo entender porque sua dança em minha cabeça não termina. é como um daqueles gifs horrorosos e entediantes mas que, por algum motivo, estão sempre voltando. em looping. nesse momento, não sei nem dizer em que parte do mundo você está. isso não é bom nem ruim. penso que gostaria de dizer foda-se para tudo o que te envolve mas, ao mesmo tempo, penso que talvez gostaria de saber. queria querer te odiar. ou não. ou apenas não queria querer querer te odiar. talvez o ponto seja querer não querer nada que te traga. mas aqui estou escrevendo para o vazio e fingindo que ainda nos falamos. e todo grito contra a parede volta a mim. VAI SE FODER. foi pra parede, que gritou de volta. é o assombro dos ecos e reflexos e dos abismos niilistas. o que nos olha e se assemelha a nós e, por isso mesmo, é tão mais assustador. é como encarar as próprias olheiras e cabelos brancos e constatar a falência de si. Isso que me tornei? Um buraco, um nada, um VAI SE FODER?! Encarar e lidar... pular no abismo é pular em si e é disso que tenho mais medo. Se já é sinistro seu mero vislumbre, que horrores não encontrarei em seu breu? Viu só? Não é mais sobre você. Nunca foi sobre você. Você já foi real, agora é só um dispositivo. Eu rio melancólico toda vez que me pego num pensamento, como se apenas então tivesse percebido minhas intenções. E aí está, ao vivo e a cores, todo o fluxo que me levou a perceber que você, como tantos, não existe. Sou novamente eu falando de mim para mim. Já estou no abismo a muito tempo.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

das despedidas

foi com aquele sempre melancólico sorriso,
nossa despedida
ao mesmo tempo aguardada e temida.
perda e alívio.

aquele que disser que os sentimentos conflituantes não são capazes de morar juntos
não viveu o suficiente do amor doído.
toda sua desilusão programada.
toda sua saudade já vivida por antecipação.

e o sorriso melancólico,
sempre ele.
sempre.
ele, que sabe do esgotamento.

da explosão, nem faísca.
da urgência, passividade.

nunca mais vou te ver.
e tudo bem.

domingo, 17 de julho de 2016

há tantas formas de amar...
que toda a velocidade vertiginosa do meu sentimento quase
quase
não me surpreendeu...

houveram, há, haverão formas de amar
até que se esgotem, como se esgotaram, como sempre
sempre
se esgotam...

porque o amor e suas muitas formas são sempre tentativa.
o erro, que transforma conceito único
amor
em múltiplo
amar
vem do concreto seco da realidade.

e quando bate, como sempre bate, sinto o gosto metálico do cano gelado
daquela arma que não existe mas me indica o fim
danação ou libertação
são coisas tão próximas

sinto que poderia tragar sua fumaça de pólvora,
o gatilho já pressionado
como um gesto de um cowboy de western spaguetti.
daqueles que se tornaram bem bregas
mas que ainda conservam um certo charme.

o buraco que a tragada faria na minha cabeça,
como que para refrescar meus pensamentos
quase
quase
poético.

não fosse a sujeira, seria um conto de fadas.
mas não tem quem limpe nada no conto de fadas.
e alguém vai ter que limpar a sujeira.

mas não se preocupe, mais recente fantasma
não vem de você essa urgência
sempre esteve aqui, sempre esteve

se algum dia você chegar a ler isso
duvido
mas se algum dia ler,
saiba que fez bem

existem muitas formas de amar
formas demais
e eu as conheço todas
e nunca aprendi nada.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

 Quando você foi chegando perto e trocamos aquele olhar por alguma fração de segundo eu percebi, com certo pesar e tristeza, que essa babaquice romântica ainda tem alguma ressonância em algum lugar renegado aqui dentro. Me contentei com o vislumbre, aceitando, como sempre aceito, meu compromisso irredutível, inabalável com a primeira lei de newton
 Ainda te vejo na minha frente, caminhando como se nada houvesse ocorrido, como se aquele instante de segundo não fosse o nosso. Mas não foi. Nunca foi. Nunca será.

terça-feira, 28 de junho de 2016

terapia

um medo profundo; paralisante
menos, breno...
não me reconheço em meu proprio nome... que coisa mais triste
menos, (...)
as vezes me sinto como se não tivesse nome
como se não fosse nada para além da minha corporidade
torporidade
como se minha existencia fosse o suficiente
e que me chamar de breno, quando me chamam, fosse referente a um estranho que não eu
o breno que chamam
me é estranho, é estranho isso
é estranho ser um não ser.
um não breno a quem chamam de breno
sou um simples você
um sujeito oculto no predicado da vida
que metáfora merda
esse sono insone
essa agonia desgraçada
que me pesa os olhos e me faz ter enjoo e taquicardia
que me questiona sobre mim mesmo
pra que? por que? pra quem? por quem?
a verdade é que estamos aqui apenas para estarmos aqui
não confio em mim
nunca confiei
tampouco confio em breno
não há razão para confiar
o mim e o breno...
duas faces de uma coisa só
a mesma duas faces
da impotência e incompetência
fico triste quando não me vêem pelo que sou
mas também ficaria se me vissem
o cru
o esqueleto
a carne flácida
a incapacidade de levantar da cama
e quem sabe
quem sabe
(...)
sinto medo de levantar da cama
e quem sabe
quem sabe
(...)
sinto medo até de terminar a frase.
sinto medo de saber o que quero fazer
sinto medo de não querer fazer nada
a vida é um incêndio que só se apaga com um incêndio maior a lhe cortar o caminho
a lhe comer, antes, o que houver de combustível para o fogo
o que há de combustível para o fogo?
o que move a vida?
vontade
liberdade
desejo
paixão
coisas que quase soam como sinônimos
significa que estamos próximos
o que move a vida?
ela mesma?
a vida é um autoreferente presa em si mesmo
a vida é inatingível
e sinto meu enjoo aumentar
e meu medo paralisar meus dedos que ainda insistem em digitar
não dá mais











já quis me suicidar
não de verdade
mas já pensei na morte como saída
talvez ingênuo de minha parte
sempre fui romântico, até antes de conhecer o romancismo
acho que as emoções fortes e intensas tem algum poder na gente
algum poder de mover alguma coisa
que, apareceu por impulso do acaso a palavra ideal aqui, voltei atrás, a perdi e agora procuro de novo
cisão
algum poder de cisão
com a verdade, com o tudo
e ao mesmo tempo
uma conexão tão forte
querer morrer é entender a vida em toda sua plenitude
enorme
inalcançável
dolorosa
querer morrer agora é
é aceitar que um infarto valerá mais do que mil paixões
e que um tiro é mais poderoso do que uma vida de fogos de artifício
é desejar a cisão
mas a cisão que retifica o que há de resto
é entender o que se deixa e o que se espera
e o que

querer morrer é dar as costas às costas
não fez sentido
mas gostei da sonoridade

querer morrer é viver no inferno
como todos vivemos
e enxergá-lo
é morrer no inferno
e renascer, talvez, em algum outro lugar
algum lugar que essa caixa, essa terrível caixa, não exerça sua inexorável pressão
ou não renascer e simplesmente sair
sair de vez

não vou me matar hoje.
não vou matar o breno hoje
mas algo morrerá
para além do óbvio de que a todo momento algo morre.
algo em mim
não sei o que mas algo morrerá