quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Dona Sílvia

Dona Sílvia não era e nunca havia sido dona de nada. As pessoas a chamavam assim por mera cortesia e convenção social. Diz a etiqueta brasileira que é de bom tom chamar pessoas idosas tal qual elas fossem ricas. Parece que, ao menos em termos de vocativos, estar próximo da morte é ascender socialmente. Era, portanto, Dona Sílvia e Seu Edinho. Seu Edinho, logo ele que, de verdade, nunca fora de ninguém - nem dele próprio. Diferente de Dona Sílvia, que lidava com naturalidade o vocativo desde seus primeiros fios de cabelo branco, Seu Edinho praguejava sempre que se referiam a ele como "Seu". "Seu é o caralho, ôoo (...)". Talvez fosse pela acusação de sua idade avançada; ou talvez fosse o fato contraditório de o chamarem por vocativos geralmente destinados a pessoas com largo valor de bens, enquanto que o maior bem de Seu Edinho era sua casa de dois quartos no subúrbio, feita a mão pelo avô, Deus sabe quantos anos atrás. Edinho deu sorte, de certa forma. Seus pais nunca tiveram irmãos nem outros filhos. Foi fácil para seus avós nunca deixarem dúvidas sobre a única herança que tinham, nem nunca houve a obrigação do compartilhamento, a não ser com sua esposa, Sílvia - na época do matrimônio -, ou Dona Sílvia - no presente. A linhagem já simples dos Silva simplificou-se mais ainda, visto que Dona Sílvia Silva e Seu Edinho Silva não deixaram herdeiros. Seu Edinho não pensava no que seria feito de sua única posse uma vez que falecesse, fugia tais pensamentos fúnebres. Mas evitar não lhe adiantou muito posto que, de fato, faleceu. E Dona Sílvia, agora sim dona de algo, também não soube o que fazer. Não acostumada a ser dona, Dona Sílvia acabou por abrir mão da casa em que passou a morar sozinha para viver com a irmã, Dona Célia, dona, ao menos de casa própria. Quando Seu Edinho morreu, Dona Sílvia chorou. Não porque o amasse e fosse sentir sua falta. À bem da verdade, Sílvia nunca amara Edinho, assim como Dona Sílvia não ama Seu Edinho. Casaram porque tinham que casar, porque é assim que se faz. Não ter filhos não foi um grande peso em sua consciência, apesar dos muitos questionamentos vindos da escarça família: sua irmã mais velha, sua há muito falecida mãe solteira, Dona Suzélia, abandonada pelo então marido no momento em que engravidou de Sílvia, exatamente no aniversário de dois anos de Célia. Mas Sílvia não se importaria de ter filhos, assim como também não se importou de não ter. Sua vida antes e durante seu relacionamento com Edinho foi mais ou menos assim. Pode ser, mas pode ser que não também. Enquanto transavam, Sílvia transava. Quando não transavam mais, Sílvia não transava. Enquanto estavam juntos, Sílvia lá estava. E quando não estiveram mais, Dona Sílvia não estava. Apesar disso, chorou com a morte de seu marido. Sete grossas e mudas lágrimas lhe escorreram pela face enquanto ligava para a emergência, o corpo inerte e morto de Seu Edinho, prostrado na cama, de cuecas samba-canção e sem camisa. Mais cinco ou seis lágrimas em seu vazio funeral. Só foram Dona Sílvia, Dona Célia e três ou quatro amigos de Seu Edinho, da época da repartição, com quem não falava há, pelo menos, uns dez anos. Diante da casa mais vazia, que agora lhe pertencia, Dona Sílvia decidiu que aquilo nunca fora nem nunca seria dela. Sentia-se usurpando o bem de outra pessoa, de Seu Edinho e da agora extinta família Silva. Isso a incomodava. Olhava para o próprio nome, entalhado na identidade, e estranhava. Sílvia Silva não era ela. Silva não era seu. Abriu mão novamente. Se perdera o direito do nome de solteira quando aceitou o nome do marido, agora que era viúva, não usaria nenhum. De Sílvia Nogueira para Sílvia Silva, para Dona Sílvia Silva para, finalmente, Dona Sílvia e, então, Senhora.

A Senhora era nova no bairro de Dona Célia. Ninguém a conhecia, a não ser quando caminhava pelas manhãs com sua irmã e era por ela apresentada. Foi nesse bairro que a Senhora conheceu um vendedor de cocos, pelo nome de Seu Manoel. Seu Manoel já havia sido e ainda era de muitas pessoas. Recebia os cocos de um fornecedor geral da região que lhe cobrava comissão por cada fruta vendida. Era, portanto, dele. Fazia bicos e quebrava galhos de vários moradores do bairro, sem titubear. Era deles. Deitava-se com muitas mulheres desde jovem e, em ocasiões, alguns homens. Fora deles também. E quando conheceu a Senhora, perguntou-lhe o nome, almejando ser dela também.

A Senhora hesitou. um momento de mudez.

- Samantha, muito prazer.

Samantha não sabia porque escolhera esse nome ou sequer por que vira a necessidade de escolher um nome novo.

- Seu Manoel - ofereceu Seu Manoel, alcançando a mão ossuda e enrugada de Samantha e a coroando com um beijo molhado.

Seu Manoel, do bairro de Dona Célia, foi, em breve, de Samantha. Assim como o foram outros homens - e algumas mulheres. Seu Jucélio, Seu Júlio, Seu Cabral, Seu Souza, Seu Cícero, Sua Aparecida, Sua Helena, Sua Alice...

Samantha não era mais Dona, mas era, pela primeira vez, dona. Samantha, pela primeira vez, anunciava sua vontade, mesmo que sem entender por que o fazia. Só o fazia. E a cada corpo conquistado, dominado, Samantha era mais dona de si. Fez-se conhecida no bairro. Dona Célia, é claro, ficou escandalizada. Mas passado algum tempo, deu de ombros. A verdade é que não estava tão interessada assim no comportamento sexual da irmã.

Quando Samantha morreu, houve confusão no funeral lotado. Ninguém, com exceção de Dona Célia, sabia quem era aquela Sílvia Silva, de nome ridículo lapidado no túmulo.

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