segunda-feira, 2 de março de 2015

Desatino

Sentia-se péssimo. Era como se enfiasse uma chave phillips enferrujada em uma ferida recém-cicatrizada, e a girasse lenta e excruciantemente. Mas precisava saber... certo? Precisava mesmo? Agora duvidava disso... Mas já era tarde. Seja lá qual fosse o resultado desta merda toda, chegaria logo.
Era terrível... Ainda a amava? Achava que sim e achava que não. Esperava que não. Amava a outra, a nova. Certo. Sim, por certo que sim. Mas então porque aquela vontade irritante de chorar? As memórias... Nauseante...
Desejava urinar. Já urinara algumas vezes ao longo do dia, a frequência aumentando com os batimentos cardíacos. Sentia que poderia sofrer um infarto e morrer mijado. A ideia abriu-lhe um tímido sorriso. Não havia muito espaço para o humor, tentava manter-se frio. Já repassara o plano dezenas de vezes. Sentariam, ele lhe faria as perguntas que queria - precisava - fazer e ouviria, sereno - pelo amor de Deus, sereno - o que quer que viesse. Deus, como precisava mijar. Apertava a virilha com a mão, meio que para confirmar a vontade.
Diabos, pra quê isso?! O que faria se ela ainda o amasse? Desejava encerrar tudo, mais porque tinha certeza de que ela já o fizera. Era certo, ainda a amava... Percebeu isso com amargor. Mas ela nunca realmente retribuíra. Não, isso não era verdade... Bom, suponho que descobriria logo, certo?... Desejava mesmo isso? Desejava mijar.
Pensava na outra com carinho e piedade... Se ela pudesse escutar este tenebroso monólogo ficaria devastada. Suspirou com culpa e fitou por algum tempo as próprias mãos, as mãos de um desgraçado.
Acalmava-se agora... Que se foda, pensou, mas a chave phillips ainda pendia balançante de seu peito, como um horrível polígrafo o denunciando para si mesmo...
Já chegava lá... E ela o esperava para "conversar", como ele mesmo havia colocado.
Olhou pela janela do ônibus e a avistou com terror.
Estava linda.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

fútil saudosismo póstumo

O vento que nos soprava aquele dia
Perdeu sua força, morreu...
E a vida que nos brindava a alegria
se entorpeceu...

E do sentimento quente, fria agonia
E do brilho do olhar
ausente a magia
Somente a gélida estia

O doce sonho
que se vive por buscar
Jaz morto, mal enterrado,
em túmulo torto

[Posto
que após a morte
vem o descanso
descanso...
manso... manso...

Posto
que após a morte
finda o tumulto
o luto
luto... luto...]

O vento que carregava nossos sorrisos
Perdeu sua força, morreu...
E o amor que mantinha-nos vivos
Seco, no deserto, padeceu.


domingo, 9 de novembro de 2014

à toda desgraça, graça

Lar doce lar

Oh doce muleta quebrada,
tão cedo veio, foi-se que nem ouço,
fratura súbita, sádica;
empurrando-me abaixo
no abismo profundo - fundo do poço.
Maldita muleta delicada,
que me encheu os olhos e ouvidos;
na boca, porrada.
Que teve meu amor, muleta ferrada,
e agora perece putrificada,
os materiais tão delicados,
tão precocemente destroçados,
fazendo companhia para minha tortura solitária.
Bem vinda ao abismo

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Ontem terminei meu namoro de dois anos e pouco e, naturalmente, chorei. e ri. e chorava porque ria, mas tambem ria porque chorava. e talvez essa situacao de retroalimentacao contraditoria e simultanea nao faça sentido - e creio que de fato nao faz, mas tambem acho que a vida é, de uma certa forma, desprovida de sentido, que é o que da aquele toque agridoce do acaso. é claro que chorei antes de rir, pela tristeza e dor da situacao. mas, uma vez estando num dos mais bregas cliches de filmes romantichatos de hollywood, nao pude deixar de achar graca. "nao e voce, sou eu"... "putz... haha" e houve certo pesar na risada. mas a dor tornou-se mais leve e mais facil de carregar. talvez devamos entender que nossos sentimentos e a vida, de uma forma geral, sao complexos demais para um monopolio solitario de um sentimento megalomaniaco, por mais que seja apenas aquele momento - que a dor reine! de uma forma geral, talvez seja mais saudável encararmos a vida como a tragicomedia que ela de fato é. e lembrarmos constantemente que para toda desgraça há graça, por mais que o "des"nos tente fazer esquecer disso. après tout, c'est la vie.

domingo, 21 de setembro de 2014

O Plebiscito da Plantation

Foi lá para o século XIX, numa dessas plantations, esses arados que tem a sofisticação europeizada no nome, daqueles de quem sempre comeu na mão dos anglofônicos e sempre comerá, mas que no corpo tem o sangue e o suor dos outros, dos colonizados, dos que não sabem se portar diante da avassaladora civilização e, como punição, tem de catar algodão até furar os dedos e cortar cana até perder a mão. Um senhor de terras daqueles iluminados, esclarecidos, progressistas, ouviu por um colega aristocrata de alto respeito que lá pelo velho continente falavam-se em ideias antigas que estavam sendo resgatados e que os franceses e, mais importante, os ingleses, cavalheiros por raça e distinção, discutiam conceitos como participação popular, opinião pública, igualdade perante a lei, emancipação do homem e uma tal de democracia, maluquice dos gregos... ou romanos... bom, que importa? Certamente eram seres notáveis. O senhor de terras, plantation owner por definição e vontade divina, jamais poderia ignorar a opinião de tão notáveis anglo-franco-gentlemen e resolveu flertar um pouquinho com a tal da democracia.

Atenção, atenção!, bradou o senhor de terras para a turba de escravos cansados, Faremos em breve um plebiscito!
Os escravos se entreolharam, perplexos e confusos, mas que porra era um plebiscito? Não emitiram um pio. Sabiam o que se passava com quem o fazia. Alguns carregavam nas costas o latejar pulsante que os lembrava o valor do silêncio. Os que não o tinham, poderiam conferir no corpo de seus colegas de servidão. Se nem isso fosse o bastante, haviam as valas mal cavadas daqueles que efetivamente piaram e daqueles que ousaram até mesmo cacarejar, como o galo ao raiar do dia, o canto poderoso da liberdade - mas que logo aprenderam, nada cantava tão alto quanto o rugido das balas.
Está combinado, então!, anunciou, satisfeito, Logo trago as novas!

O senhor de terras passou horas, dias, semanas planejando seu grande projeto revolucionário. Sim! Como era iluminado, como era esclarecido, como era progressista! E como era de-mo-crá-ti-co!! Ah, que doce palavra! Trazia para si as brisas frias, porém cálidas da Europa! Sorria contente e voltava ao trabalho. Por fim, quando ficou satisfeito com seu grande ato, chamou a família e os amigos para mostrá-los. Todos aplaudiram seu feito de-mo-crá-ti-co. Orgulhoso, foi aos escravos.

Atenção, atenção!, chamou o latifundiário, brandindo um maço de papéis no ar, Tenho aqui um projeto para o plebiscito que discutirá vossa emancipação!
Os escravos se entreolharam, incrédulos, olhos arregalados.
Quer dizer, sua liberdade., acrescentou o senhor, convencido da ignorância dos escravos. Não era necessário, eles já haviam ouvido essa palavra algumas vezes, fosse pelos traficantes que os trouxeram, que discursavam lindamente sobre liberdade, fosse pelos comerciantes que falavam de igualdade e de tudo o que acontecia na Europa e havia de acontecer na colônia, fosse entre eles, compartilhando histórias, planejando fugas e lutas e falando abertamente de fraternidade. Sabiam todo o peso e poder que aquela palavra carregava. Emancipação significava não ser mais chicoteado. Emancipação significava não ter mais os membros decepados ou moídos. Significava não serem mais estuprados. Significava poder falar a própria língua e crer na própria crença. Significava, sim, estar livre para ir embora, mas muito, muito mais. Significava e significa nunca mais ter que abaixar a cabeça para ninguém, nunca mais ser humilhado, nunca mais ser submetido. Mas ainda não estavam lá. Ficaram calados, como bem sabiam que deveriam, apesar dos olhos agitados, das respirações ofegantes e do coração bola de demolição dentro do peito.
O senhor de terras apertou os lábios decepcionado. Esperava uma reação mais de acordo com seu projeto de-mo-crá-ti-co. Entrou de novo na casa grande. O bater da porta anunciou o burburinho na senzala, um zumbido insistente e constante que não passou desapercebido pelos habitantes da grande e branca casa grande.
Que isso?, perguntou a senhora.
Devem ser moscas, respondeu o senhor, ansioso para falar-lhe de seus planos.
Vai mesmo soltar os escravos, pai?, questionou o filho, um pouco temerário de perder sua grande herança viva.
Sim, filho, se assim quiser a democracia!, respondeu, orgulhoso, De fato, podemos nos reunir amanhã mesmo para votar. Já anunciarei ao chefe dos capatazes para que nos encontrem por aqui de manhã para realizarmos nossa votação.
Eles votarão também, pai?
É claro, filho, assim manda a democracia. É assim que pensam lá na Europa.
E quem mais virá?
Bom, todo mundo, nós dois, sua mãe, seus irmãos, os capatazes, os senhores da vizinhança, e José Gomes, que me trouxe essa ideia iluminada de suas viagens pelo velho continente.
E os escravos?
O que tem eles?
Não vão votar?
Oh, céus, não, filho. Você tinha que ver a cara deles quando falei em plebiscito, como ficaram confusos! Não, filho, de forma alguma. Eles são ignorantes demais para saber o que querem, o que é melhor para eles, para todos. Isso, isso mesmo, o resultado de um plebiscito tem de ser bom para todos e eles são egoístas, não conseguem pensar nos outros.
O filho sorriu em concordância e serviu-se de um pedaço do bolo de fubá que uma escrava da casa havia feito de manhã.

Quando se reuniram na manhã seguinte na casa grande, os escravos viram toda a movimentação e compreenderam do que se tratava. Não trabalharam aquela manhã, apenas aguardaram. E aguardaram. E quando, já à tarde, o senhor veio à porta falar-lhes, estavam todos reunidos ao redor da casa grande. O latifundiário gostou daquela atenção. Pigarreou para limpar a garganta, puxou de sabe-se lá onde um grande maço de papel e começou seu discurso. Os escravos ouviram atentamente até a última frase. Até o senhor dizer "E declaro, portanto, que, de acordo com o que Deus e a Justiça concebem como o correto, vossa escravidão foi, por meio dos poderes democráticos deste plebiscito, considerada..." os escravos prenderam a respiração "mantida", concluiu o sacripanta.

E que seja para o bem comum!, adicionou, com um orgulhoso sorriso no rosto, ciente de ter cumprido seu papel democrático, ciente de toda a sua pompa revolucionária e iluminada. Como era esclarecido, como era europeu! E bateu a porta.

Era demais para eles. Sentiram por um dia o gosto iminente da liberdade, da emancipação. Estiveram próximos demais da vida para abandoná-la. Talvez o senhor tenha ficado confuso quando o primeiro escravo ingrato arrombou-lhe a porta e deu-lhe com a enxada na cabeça. Talvez todos os brancos muy libertário, avançados e europeus e, claro, oh tão democráticos, não tenham compreendido a enxurrada de pretos berrando berros nas mais diferentes línguas e atacando com os mais diferentes instrumentos. Tão, tão ingratos. Talvez os colonos colonizadores não tivessem a dimensão do gesto democrático do qual estavam tão orgulhosos de terem protagonizado. Foram mortos aos montes, à porrada e cuspes. Três negros foram alvejados pelos capatazes. Morreram. O primeiro preto, o que pegou a enxada e arrombou a porta, olhava para suas mãos meladas de sangue - pela primeira vez não o seu - e lavou-as com lágrimas. Estavam livres.

Seu filho viu, no Rio de Janeiro, quando foram todos os escravos alforriados, graças à formosa dama Isabel. Bendita seja a Princesa. Deus a abençoe. No mesmo dia, levou uma coça de alguns insatisfeitos com a decisão da dama e quase morreu. Em seu tempo moribundo, conheceu as vísceras da igualdade racial europeia. Andava com os brancos na rua, mas não havia um branco com ele na sarjeta.

O quarto depois desse na geração, por sua vez, pôde ver nos jornais e na televisão como uma torcedora racista tentava dar a volta por cima com o mesmo orgulho alforrista anglofônico. Riu vazio da menina. Sentira na pele e na alma as chibatadas da modernidade e da igualdade caucasiana de direitos vezes demais para simpatizar com a menina chorosa. Não sabia da história do pai de seu bisavô mas, se soubesse, poderia reconhecer aquele mesmo orgulho branco europeu do senhor de terras, aquele do discurso longo e complicado, dos ideais bonitos, da de-mo-cra-ci-a... poderia reconhecê-lo de imediato nas lágrimas da menina, em suas palavras nunca arrependidas por denegrir um ser humano.

"Não sou racista, fiquei com um cara negro", leu ele com rancor e escárnio.


http://odia.ig.com.br/esporte/2014-09-17/torcedora-que-ofendeu-aranha-quer-se-tornar-simbolo-contra-o-racismo.html



sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Segunda-feira


E olhava para baixo, inerte de corpo e alma, avistando o destino final sem sentir nada. Nada. O fel e o mel da vida, castrados, como um velho que dedica os dias a observar desinteressado as paredes de seu catre, à espera da morte. A morte! Via agora. Via no asfalto. A morte, sorridente e sedutora, a chamava:
"Pule!", ordenou.
Obedeceu

Talvez para os pedestres que, aos empurrões, disputavam espaço entre si e os donos dos carros abandonados para observar aquele pedaço de asfalto, aquele mesmo pedaço quente de asfalto que, há alguns segundos, sorria, mas que agora babava o escorbuto sujo do desengano; talvez para esses, esses que não ouviram o doce canto da morte, refletida no sol de verão; talvez nunca os tenha ocorrido - e, se for o caso, certamente nunca ocorrerá - que aquele amontoado brutalizado de carne, fluidos e ossos fora, há não tanto tempo atrás, uma mulher. E caso tal assunção tenha validade, é provável também que tão rápido se aglutinaram como pombos em torno de migalhas, a macabra platéia partirá tão cedo acabe seu interesse, tal é o impacto que a violência tem nos dias de hoje. Mas talvez não estejamos tão mal assim... verdade seja dita, morte em praça pública não é mais evento de festividades - talvez contra a vontade geral daqueles que pedem execução sumária de bandidos e marginais e derivados, seja lá o que lá sejam, e que vibram quando são, de fato, executadas as execuções. Mas divagamos. De volta para nossos pombos, parece que, de fato, todos se foram. Uma mulher teria feito menção de ligar para a emergência mas baixou o celular quando alguém lhe questionou "pra quê? não vai adiantar de nada mesmo". Realmente não adiantaria. A moça, ou seja lá como a chamemos agora, embarcara numa viagem sem volta Deus (e possivelmente ela própria, dependendo da crença do leitor) sabe pra onde. Além disso, acabavam-se os créditos do celular. Não valia a pena. "Deixe", concluiu, cedo ou tarde alguém vai avisar a alguma autoridade, que deve entrar com algum processo burocrático específico para remoção de corpos da via pública. Todas as questões corporativas resolvidas e a calçada devidamente higienizada, seria finalmente como se nunca ninguém houvesse feito dela seu túmulo. Nem mesmo os pedestres que, sedentos por seja lá o quê, se arrebanharam ao redor da senhora tombada, se lembrarão, quando passam por ali, de que estão pisando no sorriso torto de um asfalto sedutor. Não se lembrarão do suco vermelho que, pensando serem os sulcos do asfalto veias e artérias, corria, circulava até não poder mais, até estagnar frustrado numa poça sem pulsação. Tampouco se lembrarão da verdade coagulada que exalava de sua cor escura, de seu cheiro acre, de seu imóvel contentamento.

Espere, leitor, talvez tenhamos nos precipitado. O jovem rapaz que agora atravessa a rua acompanhou todo o drama da mulher que saltara. À caminho da faculdade, observava distraído os prédios enquanto esperava o sinal abrir, quando se depara com uma senhora olhando fixamente para baixo. O sinal abriu, mas o rapaz apenas pousou sua mochila no chão e aguardou pacientemente os movimentos da mulher. Observou-a entrando em casa e voltando para a janela. Entrando novamente, cortando nervosamente, como um jovem médico em sua cirurgia de estréia, as redes que a protegiam do ar fétido da cidade, retornando para dentro e, após um longo tempo, finalmente escalando o parapeito da janela, o rosto, à princípio, o rapaz pôde observar, de expressão tensa e nervosa, mas então, com a segurança que traz as palavras certas sussurradas nos ouvidos, serena e segura. Quando o asfalto falou, o garoto ouviu e soube, antes de acontecer, que a moça pularia. E, quando pulou, uma lágrima solitária manchou a camisa do rapaz.
Agora, ajoelhava-se para observá-la, os pedestres contornando o casal, com olhares de reprovação - onde já se viu brincar com morto? Afastou com delicadeza e ternura os cabelos do rosto que ainda a tinha sobrado e admirou, fascinado, seu olhar - o olhar do mais puro tédio, que apenas a morte conhece. Fechou-lhe as pálpebras e, o coração pulsante preenchido de compaixão e carinho, beijou-lhe a face. O epitáfio final.

Levantou-se.
Alguém enfim ligava para alguma autoridade competente.
Começava a cheirar.
Olhou pela última vez.
O asfalto sorria.