Sentia-se péssimo. Era como se enfiasse uma chave phillips enferrujada em uma ferida recém-cicatrizada, e a girasse lenta e excruciantemente. Mas precisava saber... certo? Precisava mesmo? Agora duvidava disso... Mas já era tarde. Seja lá qual fosse o resultado desta merda toda, chegaria logo.
Era terrível... Ainda a amava? Achava que sim e achava que não. Esperava que não. Amava a outra, a nova. Certo. Sim, por certo que sim. Mas então porque aquela vontade irritante de chorar? As memórias... Nauseante...
Desejava urinar. Já urinara algumas vezes ao longo do dia, a frequência aumentando com os batimentos cardíacos. Sentia que poderia sofrer um infarto e morrer mijado. A ideia abriu-lhe um tímido sorriso. Não havia muito espaço para o humor, tentava manter-se frio. Já repassara o plano dezenas de vezes. Sentariam, ele lhe faria as perguntas que queria - precisava - fazer e ouviria, sereno - pelo amor de Deus, sereno - o que quer que viesse. Deus, como precisava mijar. Apertava a virilha com a mão, meio que para confirmar a vontade.
Diabos, pra quê isso?! O que faria se ela ainda o amasse? Desejava encerrar tudo, mais porque tinha certeza de que ela já o fizera. Era certo, ainda a amava... Percebeu isso com amargor. Mas ela nunca realmente retribuíra. Não, isso não era verdade... Bom, suponho que descobriria logo, certo?... Desejava mesmo isso? Desejava mijar.
Pensava na outra com carinho e piedade... Se ela pudesse escutar este tenebroso monólogo ficaria devastada. Suspirou com culpa e fitou por algum tempo as próprias mãos, as mãos de um desgraçado.
Acalmava-se agora... Que se foda, pensou, mas a chave phillips ainda pendia balançante de seu peito, como um horrível polígrafo o denunciando para si mesmo...
Já chegava lá... E ela o esperava para "conversar", como ele mesmo havia colocado.
Olhou pela janela do ônibus e a avistou com terror.
Estava linda.
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