terça-feira, 3 de março de 2015

Premonição

Aquele sorriso o assombraria por algum tempo. Era sua única certeza no momento. Conhecia-o. Conhecia o sorriso. Era o mesmo sorriso que tinha quando deitava-se com ele, o sorriso de carinho, de prazer companheiro. E agora estampava o rosto dela, como tantas vezes presenciara, como deliciada calmaria.
Só que dessa vez o sorriso esmigalhava-lhe o coração. Já não estavam juntos. E, embora fosse ele quem a tocava, provavelmente não habitava a mente da menina - menina? Já era mulher. Sempre fora -, não era ele a causa do sorriso. Não importava, realmente. Mesmo que fosse, ele ou talvez o eco de tudo o que jazia ainda semi-enterrado, como as ruínas de uma civilização levantadas pelo vento - o vento de seu toque, o vento do sorriso... Mesmo que fosse o motivo do sorriso, era questão de tempo, apenas, até não ser mais. Ninguém é insubstituível, pensou no mesmo instante em que a descarga elétrica da certeza melancólica preencheu seu corpo, dando vida nova às engrenagens mortas da velha civilização... Lembraria do sorriso...

Nenhum comentário:

Postar um comentário