quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Dias... incompleto/sem revisão

Por que ele pulou? Por que ele pulou? Já fazia uma semana desde o enterro de André e Dias não tirava o pensamento da cabeça, por mais que tentasse, por mais que esfregasse o rosto com força até abrir feridas. Puxava pedaços de pele flácida como que pra arrancar a inquietação de seu corpo. Nada. Por que ele pulou? Por que ele pulou? Não fazia sentido... André sempre foi querido, amado, bonito, estudou numa boa faculdade, trabalhava, recebia um bom salário, teve várias namoradas, muitos amigos, sua família o amava muito. Por que ele pulou? Que sentido queria tirar disso, aliás? Lembrava-se como relâmpago do diálogo que teve na mesma noite. Ele brincou que ia pular. Não, ele não brincou, ele avisou. E Dias não fez nada. Seria André pedindo socorro? E se Dias tivesse entendido a mensagem? Algo mudaria? Será que André não disfarçaria e pularia de todo jeito? Se não naquele dia, em outro. Se não daquela varanda, de outra. Mas por que ele faria isso? Por que ele pularia? Problemas com drogas? Depressão? O que é? Ninguém que o conhecia esperava isso acontecer. Ninguém que o conhecia poderia sequer imaginar que André fosse pular. Mas pulou. Alguns o acusaram. Falta de Deus, falta de amor, falta disso e daquilo, falta, falta. O que faltava? Será que faltava algo mesmo a ele? E Dias? Será que pularia também? Olhava com os olhos arregalados e sempre muito vermelhos o teto empoeirado de seu quarto. Será que pularia também? Levantou-se e cambaleou até a janela, donde olhou para baixo. As pessoas caminhando nas calçadas, indo para o trabalho, para escola, passeando com seus cachorros. Será que não sabiam que seu amigo tinha se matado? Que viu o corpo quase sem vida de seu amigo e o teve nos braços? Que perdeu seu amigo? Como poderiam andar tão tranquilamente? Que merda, caralho, porra, puta que pariu, que merda, que merda, que merda, PORRA. Será que pularia também? As sobrancelhas franzidas de Dias começavam a doer-lhe a testa. Seu coração cansava-se de disparar a todo momento. Sua respiração sem ritmo, suas mãos sempre encharcadas de suor. Será que pularia também? A raiva das pessoas indiferentes, a raiva do sol que brilhava e do céu azul salpicado de nuvens que dançavam ao vento do verão como se nada, como se nada, como se nada tivesse acontecido. Será que não sabiam? Como poderiam não saber? Que seu amigo, seu melhor amigo, seu irmão, tinha se matado? Será que pularia também? Nesse dia lindo. Para que soubessem. Para que caísse um temporal sobre suas cabeças, com raios de concreto e gotas de sangue, para que o tempo fechasse, para que soubessem, para que soubessem que ele pulou.

Dias não pulou. Dias não queria pular. Dias não queria, não queria, não queria morrer. Dias sentia saudade de André. Muita saudade. Era uma dor dilacerante que só aumentava quanto mais insuportável era sua incompreensão. Filho da puta, será que sequer pensou nele, sequer pensou em Dias antes de fazer isso? Filho da puta, agora ele tava daquele jeito patético. O ser patético, chorando e soluçando na janela se perguntando porque porque porque porque.

Entre catarros e lágrimas, Dias fechou os olhos e foi se acalmando. Talvez, pensou, talvez seja impossível saber o que se passa na cabeça de outra pessoa.

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