Um frio na barriga e uma ocasional taquicardia. Uma sensação de vazio e quase como se já tivesse tudo acabado. Não há rotina ou perspectiva. Ainda não há futuro. Há somente o que há, que vai se transformando, coisa monstruosa, a cada segundo. Como uma explosão que se expande a engolir tudo em volta. Na rede, na noite escura, percebo que já senti isso. Quando acordei naquele dia de 2010 com um estrondo e não havia luz. Chovia como talvez eu nunca mais veria chover. Os trovões explodiam como cometas, mas não foi isso o que me acordou. Alguma outra catástrofe fora anunciada. Meu pai foi para a noite. Breu. O barranco tinha caído. Toninho estava debaixo dele. Toninho era o caseiro do vizinho. Era. Agora Toninho estava debaixo da terra. Tentei ligar para a Defesa Civil, me informaram que eu não estava sozinho no meu desespero e que não havia mais carros disponíveis. Meu pai foi cavar. Salvar Toninho. Eu fiquei com meu avô e minha mãe, ouvindo as notícias do apocalipse em seu radinho à pilha. Quando chegaram os bombeiros, ainda escuro, acharam Toninho. Já morto. Não pela terra. Incrivelmente, o interior da casa havia sido poupado, como um santuário subterrâneo ou talvez cripta para o homem sufocado pelo gás instalado incorretamente. O vizinho não se mexeu para ajudar. Ficou lá. Mais tarde, diria que foi um acidente e tentaria comprar o silêncio da família de seu funcionário. Continuamos sem luz. Árvores e terra desabadas por toda parte. Famílias, entre vizinhos e amigos, que tiveram suas casas alagadas começaram a chegar para se abrigar. Era tudo surreal. Nosso outro vizinho tinha luz, de alguma forma. Puxou um cabo para compartilhar conosco, nosso abrigo no inferno chuvoso. A sensação na época era a mesma de hoje. Algo como um pós-tempo. Viver fora do tempo, faz sentido? A sensação de que o tempo não passava, apenas existíamos. É diferente dessa vez. Temos luz em casa, não há destruição visível. Mas parece que a catástrofe iminente se aproxima como se o morro fosse cair novamente, mas em cima de todas as cabeças do planeta. E vejo meu vizinho em tanta gente. Em quem tem poder e nada faz para atenuar a dor e medo. Em quem não se preocupa com o outro. É estranho. Talvez isso nunca tenha acontecido na história moderna. Cidades paralisadas. Pessoas trancadas em casa. Mas há familiaridade. E os prospectos sombrios do que será o depois... Empregos perdidos, vidas perdidas, não mais por doença, mas pelo declínio econômico. É como se víssemos um desastre acontecendo em câmera lenta. A explosão que falei antes, como se ela viesse e não podemos sair do caminho. Daqui, não há nada a ser feito.
Horas depois, retomo. Há algo mais. Meu pai cavando, nós recebendo as famílias em casa, indo buscar nossos amigos e afogando o carro no processo. As muitas campanhas para ajudar as famílias que perderam tudo. As lágrimas derramadas, os abraços dados, os colos oferecidos. Há algo a mais que aparece nesses momentos. Quando todos, juntos, somos expostos à crueldade do mundo. Quando estamos todos vulneráveis e perdidos. Quando a morte aparece, muito real, aparece a vida também. As mãos estendidas. Vi um vídeo bonito de um homem tocando piano em sua varanda, os prédios ao redor repleto de pessoas ávidas por isso. Não era a música. A música do Titanic, tocada com muitos erros e tempo estranho. É outra coisa. Um outro homem acompanha, de sua própria varanda, com um saxofone. No fim, aplausos. Como se dissessem todos, em uníssono, estamos juntos, vamos sobreviver juntos. Essa solidariedade apocalíptica. Essa loucura que mistura cultura e algo de primal. Algo de sobrevivência. A noção total de que não vivemos sem o outro. Que precisamos de todos ao nosso redor, independente de qualquer outra coisa. O que é isso? Somos nós respondendo às ideias de direitos, dignidade, solidariedade... humanidade, etc? Ideias, conceitos, construídas por nós, produtos de um longuíssimo processo histórico da espécie... Ou... ou será que somos nós em nossa forma mais primitiva? O reconhecimento da sobrevivência apenas quando coletiva? O nosso grupo, que agora abarca toda a humanidade? Deus sabe... Talvez o primeiro seja fruto do segundo. Talvez a própria ideia de Natureza seja mera fabricação, quem sabe... Mas é algo de bonito. Como uma vela que não apaga numa nevasca. Enquanto houver luz, enquanto houver calor... talvez ainda dê pra pensar num amanhã.