quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

aquele gosto amargo do cigarro lhe incomodava e agraciava ao mesmo tempo. de alguma forma, sentia prazer naquilo... naquela sensação de estar cada vez mais próximo do fim. porque, na verdade, sentia que não aguentava mais. como já tivera a ideia de que nenhuma vida é fútil, tudo faz parte de um processo e tudo tem seu tempo, agora se cansara. sua vida era inútil. um amontoado de nada a permanecer, como pedra não vista, para sempre. pedra que é chutada sem perceber, pedrinha de asfalto que, aos poucos, com erosão, se torna pó de coisa alguma e some sem chamar atenção. o gosto do cigarro lhe aproximava da morte, então gostava. não acreditava em vida pós morte, então dizer que descansaria era bobagem. mas acreditava na vida pré morte... e esta lhe parecia insuportável. o galeano disse que os mais sensíveis eram aqueles que caíam e não conseguiam se levantar. não sabia se se considerava sensível. mas sabia que estava caído e lhe faltavam forças para não estar mais. o mundo visto do chão parecia gigante. o próprio homem de pé, inalcançável. sendo que já fora um homem de pé. entendeu que não mais voltaria a sê-lo. Como um paraplégico sem ajuda, só lhe restava rastejar. e o rastejo só pode durar tanto tempo até que as roupas se rasguem e a pele se esfole, pintando de vermelho o caminho, como o rastro do fracasso. via os homens de pé passando sem se importarem com ele. vez em quando, alguém caía, e ali permanecia, como ele, o olhar cansado, moribundo. pensava se teria aquele olhar também. o olhar de quem não enxerga mais, de quem não deseja mais. o olhar acostumado com o concreto quente do chão a lhe queimar a face. ficou lá, olhando sem enxergar, se esquecendo de comer, se esquecendo de se limpar, se esquecendo de respirar. o gosto amargo do cigarro foi a última coisa que sentiu antes de morrer, um misto de desgosto, deleite e alívio. aquele gosto horrível, mas necessário.