Foi lá para o século XIX, numa dessas plantations, esses arados que tem a sofisticação europeizada no nome, daqueles de quem sempre comeu na mão dos anglofônicos e sempre comerá, mas que no corpo tem o sangue e o suor dos outros, dos colonizados, dos que não sabem se portar diante da avassaladora civilização e, como punição, tem de catar algodão até furar os dedos e cortar cana até perder a mão. Um senhor de terras daqueles iluminados, esclarecidos, progressistas, ouviu por um colega aristocrata de alto respeito que lá pelo velho continente falavam-se em ideias antigas que estavam sendo resgatados e que os franceses e, mais importante, os ingleses, cavalheiros por raça e distinção, discutiam conceitos como participação popular, opinião pública, igualdade perante a lei, emancipação do homem e uma tal de democracia, maluquice dos gregos... ou romanos... bom, que importa? Certamente eram seres notáveis. O senhor de terras, plantation owner por definição e vontade divina, jamais poderia ignorar a opinião de tão notáveis anglo-franco-gentlemen e resolveu flertar um pouquinho com a tal da democracia.
Atenção, atenção!, bradou o senhor de terras para a turba de escravos cansados, Faremos em breve um plebiscito!
Os escravos se entreolharam, perplexos e confusos, mas que porra era um plebiscito? Não emitiram um pio. Sabiam o que se passava com quem o fazia. Alguns carregavam nas costas o latejar pulsante que os lembrava o valor do silêncio. Os que não o tinham, poderiam conferir no corpo de seus colegas de servidão. Se nem isso fosse o bastante, haviam as valas mal cavadas daqueles que efetivamente piaram e daqueles que ousaram até mesmo cacarejar, como o galo ao raiar do dia, o canto poderoso da liberdade - mas que logo aprenderam, nada cantava tão alto quanto o rugido das balas.
Está combinado, então!, anunciou, satisfeito, Logo trago as novas!
O senhor de terras passou horas, dias, semanas planejando seu grande projeto revolucionário. Sim! Como era iluminado, como era esclarecido, como era progressista! E como era de-mo-crá-ti-co!! Ah, que doce palavra! Trazia para si as brisas frias, porém cálidas da Europa! Sorria contente e voltava ao trabalho. Por fim, quando ficou satisfeito com seu grande ato, chamou a família e os amigos para mostrá-los. Todos aplaudiram seu feito de-mo-crá-ti-co. Orgulhoso, foi aos escravos.
Atenção, atenção!, chamou o latifundiário, brandindo um maço de papéis no ar, Tenho aqui um projeto para o plebiscito que discutirá vossa emancipação!
Os escravos se entreolharam, incrédulos, olhos arregalados.
Quer dizer, sua liberdade., acrescentou o senhor, convencido da ignorância dos escravos. Não era necessário, eles já haviam ouvido essa palavra algumas vezes, fosse pelos traficantes que os trouxeram, que discursavam lindamente sobre liberdade, fosse pelos comerciantes que falavam de igualdade e de tudo o que acontecia na Europa e havia de acontecer na colônia, fosse entre eles, compartilhando histórias, planejando fugas e lutas e falando abertamente de fraternidade. Sabiam todo o peso e poder que aquela palavra carregava. Emancipação significava não ser mais chicoteado. Emancipação significava não ter mais os membros decepados ou moídos. Significava não serem mais estuprados. Significava poder falar a própria língua e crer na própria crença. Significava, sim, estar livre para ir embora, mas muito, muito mais. Significava e significa nunca mais ter que abaixar a cabeça para ninguém, nunca mais ser humilhado, nunca mais ser submetido. Mas ainda não estavam lá. Ficaram calados, como bem sabiam que deveriam, apesar dos olhos agitados, das respirações ofegantes e do coração bola de demolição dentro do peito.
O senhor de terras apertou os lábios decepcionado. Esperava uma reação mais de acordo com seu projeto de-mo-crá-ti-co. Entrou de novo na casa grande. O bater da porta anunciou o burburinho na senzala, um zumbido insistente e constante que não passou desapercebido pelos habitantes da grande e branca casa grande.
Que isso?, perguntou a senhora.
Devem ser moscas, respondeu o senhor, ansioso para falar-lhe de seus planos.
Vai mesmo soltar os escravos, pai?, questionou o filho, um pouco temerário de perder sua grande herança viva.
Sim, filho, se assim quiser a democracia!, respondeu, orgulhoso, De fato, podemos nos reunir amanhã mesmo para votar. Já anunciarei ao chefe dos capatazes para que nos encontrem por aqui de manhã para realizarmos nossa votação.
Eles votarão também, pai?
É claro, filho, assim manda a democracia. É assim que pensam lá na Europa.
E quem mais virá?
Bom, todo mundo, nós dois, sua mãe, seus irmãos, os capatazes, os senhores da vizinhança, e José Gomes, que me trouxe essa ideia iluminada de suas viagens pelo velho continente.
E os escravos?
O que tem eles?
Não vão votar?
Oh, céus, não, filho. Você tinha que ver a cara deles quando falei em plebiscito, como ficaram confusos! Não, filho, de forma alguma. Eles são ignorantes demais para saber o que querem, o que é melhor para eles, para todos. Isso, isso mesmo, o resultado de um plebiscito tem de ser bom para todos e eles são egoístas, não conseguem pensar nos outros.
O filho sorriu em concordância e serviu-se de um pedaço do bolo de fubá que uma escrava da casa havia feito de manhã.
Quando se reuniram na manhã seguinte na casa grande, os escravos viram toda a movimentação e compreenderam do que se tratava. Não trabalharam aquela manhã, apenas aguardaram. E aguardaram. E quando, já à tarde, o senhor veio à porta falar-lhes, estavam todos reunidos ao redor da casa grande. O latifundiário gostou daquela atenção. Pigarreou para limpar a garganta, puxou de sabe-se lá onde um grande maço de papel e começou seu discurso. Os escravos ouviram atentamente até a última frase. Até o senhor dizer "E declaro, portanto, que, de acordo com o que Deus e a Justiça concebem como o correto, vossa escravidão foi, por meio dos poderes democráticos deste plebiscito, considerada..." os escravos prenderam a respiração "mantida", concluiu o sacripanta.
E que seja para o bem comum!, adicionou, com um orgulhoso sorriso no rosto, ciente de ter cumprido seu papel democrático, ciente de toda a sua pompa revolucionária e iluminada. Como era esclarecido, como era europeu! E bateu a porta.
Era demais para eles. Sentiram por um dia o gosto iminente da liberdade, da emancipação. Estiveram próximos demais da vida para abandoná-la. Talvez o senhor tenha ficado confuso quando o primeiro escravo ingrato arrombou-lhe a porta e deu-lhe com a enxada na cabeça. Talvez todos os brancos muy libertário, avançados e europeus e, claro, oh tão democráticos, não tenham compreendido a enxurrada de pretos berrando berros nas mais diferentes línguas e atacando com os mais diferentes instrumentos. Tão, tão ingratos. Talvez os colonos colonizadores não tivessem a dimensão do gesto democrático do qual estavam tão orgulhosos de terem protagonizado. Foram mortos aos montes, à porrada e cuspes. Três negros foram alvejados pelos capatazes. Morreram. O primeiro preto, o que pegou a enxada e arrombou a porta, olhava para suas mãos meladas de sangue - pela primeira vez não o seu - e lavou-as com lágrimas. Estavam livres.
Seu filho viu, no Rio de Janeiro, quando foram todos os escravos alforriados, graças à formosa dama Isabel. Bendita seja a Princesa. Deus a abençoe. No mesmo dia, levou uma coça de alguns insatisfeitos com a decisão da dama e quase morreu. Em seu tempo moribundo, conheceu as vísceras da igualdade racial europeia. Andava com os brancos na rua, mas não havia um branco com ele na sarjeta.
O quarto depois desse na geração, por sua vez, pôde ver nos jornais e na televisão como uma torcedora racista tentava dar a volta por cima com o mesmo orgulho alforrista anglofônico. Riu vazio da menina. Sentira na pele e na alma as chibatadas da modernidade e da igualdade caucasiana de direitos vezes demais para simpatizar com a menina chorosa. Não sabia da história do pai de seu bisavô mas, se soubesse, poderia reconhecer aquele mesmo orgulho branco europeu do senhor de terras, aquele do discurso longo e complicado, dos ideais bonitos, da de-mo-cra-ci-a... poderia reconhecê-lo de imediato nas lágrimas da menina, em suas palavras nunca arrependidas por denegrir um ser humano.
"Não sou racista, fiquei com um cara negro", leu ele com rancor e escárnio.
http://odia.ig.com.br/esporte/2014-09-17/torcedora-que-ofendeu-aranha-quer-se-tornar-simbolo-contra-o-racismo.html